Aproveitando o embalo do que está sendo até o momento uma maravilhosa 10ª temporada - e para a tristeza dos fãs de Peter Capaldi como eu, a última do ator no papel principal -listei cinco episódios no qual tenho muito carinho, aqueles episódios que gosto de rever sempre que posso seja pelo roteiro ou pela atuação brilhante do elenco.

Para quem chegou de pará-quedas aqui e não sabe que raios é Doctor Who - mas convenhamos, você viveu numa caverna nesses últimos cinco anos para não ter ouvido nem falar da série até hoje #brincadeirinha - é uma série britânica de ficção científica/aventura com quase 54 anos de existência. 

A série narra as aventuras de um Senhor do Tempo chamado Doctor (ou Doutor) que viajava numa máquina do tempo com formato de cabine de polícia londrina chamada TARDIS sempre com uma (s) companheiras (os) na maioria das vezes humanos. Por ser um alienígena, ele quando está à beira da morte, se regenera em um novo corpo, mas mantém suas memórias - esta razão de tantos atores interpretarem o mesmo personagem e a série ter durado tanto tempo.

A produção depois de um longo hiatus retornou em 2005 e continua até hoje. Em 2013 a série se popularizou no Brasil com a exibição do especial de 50 anos no cinema, no qual eu tive o privilégio de participar da transmissão simultânea junto com outros fãs da série. 

De 2013 para cá, os fãs brasileiros de Doctor Who saíram do limbo e de comunidades obscuras da internet, se tornando finalmente conhecidos junto com a série. Conheci Doctor Who em meados de 2012 e não larguei mais, e já até fiquei perto do David Tennant (meu Doutor favorito) na Comic Con Experience ☺

Eis a minha seleção de episódios favoritos até hoje do homem louco com uma caixa. E cuidado com os spoilers:

Menção honrosa: The Doctor's Wife


Doctor: 11º (Matt Smith)
Companions: Amy Pond (Karen Gillan) e Rory Williams (Arthur Darvill)

Eu não poderia deixar esse episódio de fora por conta de um nome: Neil Gaiman. Sim, o próprio escreveu o roteiro deste episódio que é um dos melhores da era do 11º Doctor. Quem conhece o trabalho do Gaiman sabe que ele não brinca em serviço e nos entrega uma história que além de acrescentar muita coisa à mitologia da série, nos presenteia com a TARDIS ganhando vida em um corpo de uma mulher!

A relação Doctor-TARDIS é a mais importante que existe em toda a série e isso fica em evidência neste episódio. Temos diálogos memoráveis entre dois, de fazer rir e chorar.





5 - The Empty Child / The Doctor Dances


Doctor: 9º (Christopher Eccleston)
Companion: Rose Tyler (Billie Piper)

Poucos fãs gostam de verdade da primeira temporada o que acho uma injustiça com o 9º Doctor, mas admito que a tosquice pode incomodar os desavisados. 

Porém quando se chega no arco The Empty Child / The Doctor Dances a temporada melhora bastante, além de introduzir o querido Capitão Jack Harkness que irá aparecer mais vezes na série ajudando o Doctor, e porque se passa no meio da Segunda Guerra Mundial durante o ataque alemão da Blitz em Londres. 

No meio do confronto, o Doctor e a Rose encontram um grupo de crianças sem-teto aterrorizadas por Jamie "a criança vazia" com uma máscara de gás. É aquele episódio que dá uns pesadelos depois de assistir, é considerado um dos mais aterrorizantes da série, mas que possui uma conclusão marcante, incluindo a fala do 9º Doctor no fim:







4 - The Snowmen


Doctor: 11º (Matt Smith)

Companion: Clara Oswald (Jenna Coleman)

Ah esse especial de Natal de 2012 é uma mistura de conto infantil com drama que gosto demais, além de ser a introdução da minha segunda companion favorita, Clara Oswald - não necessariamente a verdadeira Clara, mas isso fica claro na sétima temporada.

Temos também a primeira aparição desde o reboot de um vilão antigo da série, The Great Intelligence que será crucial na história tanto do Doctor quanto da Clara, assim como também no especial de 50 anos. A interação entre Clara e o Doctor é muito divertida neste especial de natal e já foi neste episódio que ela me conquistou, além de todo aquele clima gostoso de Natal.









3 - The Fires of Pompeii


Doctor: 10º (David Tennant)
Companion: Donna Noble (Catherine Tate)

Às vezes o Doctor se intromete na História para ajudar, mas também acaba provocando o mal sem querer - contradição que considero essencial para entender o personagem, e neste episódio isso fica bem evidente. Donna se mostra como uma mulher com um coração muito nobre (sim foi trocadilho) pois antes desse episódio ele aparentava ser uma mulher frívola para se importar com os outros. Foi nessa história que a moça ganhou a minha admiração por fazer o Doctor enxergar o que ele não conseguia ver e o cargo de companion favorita ❤

E tem a participação de um ator que virou Doctor...








2 - The End of Time (Parte I e II)


Doctor: 10º (David Tennant)
Companion: Wilfred (Bernad Cribbins)

Última história do meu querido 10º Doutor e não poderiam ter feito uma conclusão de sua jornada de forma mais poderosa e emocionante, com direito ao retorno do meu vilão favorito, o Master (John Simm) revelações sobre a Guerra do Tempo e a aparição de Rassilon e companhia limitada.

É uma das histórias mais pesadas da série, principalmente pela carga emocional nos últimos minutos. David Tennant está melhor do que nunca neste episódio e é nítido a entrega total do ator na sua despedida da série, o que para nós foi um presente e tanto. Ainda considero a melhor regeneração até hoje - veremos se Peter vai fazer eu mudar de ideia. É o segundo melhor episódio de toda a nova era de Doctor Who e favorito!





E o primeiro lugar vai para....






1 - Heaven Sent


Doctor: 12º (Peter Capaldi)
Companion: Nenhuma #feels

Um grande ator, com um roteiro incrível e uma direção que faz jus ao talento de Peter Capaldi. Um episódio de 50 minutos que é um puro monólogo, sustentando-se apenas no talento do ator escocês. Se fosse para definir Heaven Sent em uma palavra seria brilhante. Assim como muitos fãs, considero este o melhor episódio de toda a série moderna, pois acho difícil algum outro ator fazer o que Peter fez.

Peter é o meu segundo Doctor favorito depois do David e para mim foi maravilhoso ver um roteiro que valorizava seus atributos como ator - assim como toda a 9ª temporada - serem finalmente bem usados. O enredo é focado em duas coisas: existência e luto. Sombrio, até assustador e agoniante em algumas partes, Heaven Sent é sem dúvidas um episódio que fez história nesses mais de 50 anos de série e uma verdadeira obra de arte *palmas*

PS: Peter deveria ter sido indicado para um BFTA!






Contém spoilers

Mary Lennox é uma garota insuportável. Após a morte catastrófica de seus pais, a garota deixa a Índia e volta para a Inglaterra para viver com seu tio, Mr. Craven em Misselthwaite, Yorkshire, este um homem atormentado pelo passado. Sozinha e abandonada pela família, Mary é acostumada a se importar somente consigo mesma e seus caprichos. Porém os segredos de Misselthwaite, incluindo um misterioso jardim trancado por dez anos, desperta na garota grande curiosidade que irá mudar sua vida para sempre.

Publicado em 1911 na Inglaterra, O Jardim Secreto (The Secret Garden) da inglesa Frances Hodgson Burnett é considerado um dos romances infanto-juvenis mais importantes da literatura do século XX, reconhecimento que veio somente póstumo à morte da autora em 1924.

O romance é divido em duas grandes partes: na primeira parte a autora narra os fatos pelo ponto de vista de Mary, incluindo sua consciência, emoções e pensamentos mais profundos a respeito das pessoas dos quais terá que conviver em Misselthwaite e as peculiaridades das mesmas, principalmente em relação a Dickon – importante personagem da trama – um garoto encantador que vira seu amigo no meio do livro e Ben Weatherstaff, o jardineiro.

O mistério do jardim trancado torna-se a obsessão de Mary e um propósito tão forte na menina que com sua eventual descoberta, mudanças profundas acontecem na garota a ponto dela passa a ver a vida e as pessoas com verdadeira compaixão e humanidade.

A metáfora do despertar para a vida pelo jardim secreto se concretiza de forma plena no segundo protagonista da história que toma as rédeas da narrativa até o fim, o impetuoso Colin Craven, primo da garota e filho de Mr. Craven. 

Órfão de mãe e abandonado pelo pai e trancado no próprio quarto por ser julgado doente, o menino acredita piamente que é um aleijado e que morrerá em breve. Cheio de birras e excessos de raiva, o encontro de ambos é um dos melhores momentos do livro, pois mostra a Mary tal como ela era como pessoa quando chegou a casa.


Se Mary tomou consciência de si mesma e das pessoas ao seu redor, o despertar de Colin quando é apresentado ao jardim com a amizade da prima e de Dickon é mais arrebatador e profundo. O sentido da vida é essencial para o ser humano para lhe dar um norte, pois sem essa bússola que o conduzirá até o final, não é de se estranhar que muitos se percam o curso da própria vida, acarretando até mesmo em doenças como no caso de Colin.

Contudo a mudança no garoto é tão profunda que é como se ele nascesse novamente. Sem saber a quem agradecer pelo milagre, sua simples razão lhe dizia para agradecer a Mágica do jardim tal como ele chamava, que não só o curou de ficar aleijado, mas também curou a sua alma – mágica esta que ele descobre mais tarde vir de um Criador, e a busca por Ele passa a ser o sentido da sua vida dali em diante.

Dickon é um personagem fácil de gostar logo de cara por ser uma criança adorável e brincalhona, ele sendo um espelho do que Mary e Colin se tornam no final do livro. De crianças birrentas, infelizes e sozinhas, é com frescor que vemos os três sendo o que são verdadeiramente: crianças que brincam, que contam piadas e que riem, ou sejam, felizes. 

Este renascer afeta toda a família Craven que estava divida pela dor e pelo remorso, salvando-a de um destino melancólico. Nada mais belo este milagre vir de três crianças nas suas simplicidades de vocabulário e sentimentos, sábias o suficiente para apreciar os mistérios da existência que os adultos não conseguem entender. 

A narrativa perde o tom sombrio do começo do romance e no fim é quase como se estivéssemos lendo uma outra história, pois é grande a diferença de sentimento e uso da cadência, ou seja, o ritmo das palavras colocado pela autora que é lírico e suave como uma brisa. 

A linguagem musical de todo o livro desperta no leitor o convite de agradecer pelo mistério da vida aos olhos de Mary, Colin e Dickon que souberam apreciá-la como um verdadeiro presente. Não é possível compreender estes mistérios completamente – e jamais o faremos em nossa condição humana – mas no final de O Jardim de Secreto as crianças mostram que é sempre possível mudar o rumo da sua história para um enredo melhor. 

Algumas considerações sobre o inglês da obra:

Para quem já está em um bom estágio, no nível intermediário para avançando, não será problema a leitura. Porém por se tratar de um livro do começo do século passado, o inglês é mais arcaico e a autora usa muitos fonemas na escrita para denotar o sotaque de Yorkshire, o que pode atrapalhar a compreensão de alguns diálogos. 




Às vezes é necessário que alguém que conhece muito bem a si mesmo nos diga algumas verdades óbvias. Não é segredo que vivemos em um século tragado pelo relativismo onde a verdade parece que desapareceu, sendo esta apenas o "cada um com a sua". Traçar um caminho de busca à ela não é qualquer um que a faça, mas o senhor Gilbert Keith Chesterton não é qualquer um.

Publicado pela primeira vez em 1908 na Inglaterra que já sentia as mudanças no qual o autor irá retratar na obra O Que Há de Errado com o Mundo dois anos depois, Ortodoxia nada mais é do que o caminho de conversão exposto de forma sincera e racional do Gordo de volta à Igreja Católica. Diferente de qualquer testemunho que se vê hoje - alguns com muitos exageros - Chesterton nos pega pela mão e nos obriga a um esforço filosófico para compreendermos a rota que traçou para ele chegar às conclusões fundamentais sobre o Cristianismo.

Chesterton no início do livro nos apresenta sua "razão pura", aquelas convicções que nasceram e continuaram com ele por toda a sua vida no qual ele nomeia como o país das fadas. O maravilhamento infantil diante da realidade da vida é o primeiro passo que ele nos mostra que alguém deve se obrigar, maravilhamento este que é sufocado até mesmo nas crianças de berço, porém este é essencial para se chegar ao conhecimento - tal qual como Chesterton o fez.

É visível o período de confusão de ideias que o autor viveu onde ele narra as influências de diversas correntes de pensamento que quebrou o encanto inicial, fazendo-o enxergar a vida de forma torta e incorreta. A ideologia que ele mais ataca são as raízes do progressismo como conhecemos, pensamento que hoje distorce as relações humanas em níveis catastróficos. 



Em meio a tudo isso, Chesterton desiludido com tais ideias percebe que o Cristianismo, em especial a Igreja Católica permanecia em intacta em sua doutrina que sempre ia na contramão do mundo, mas que o atravessou os séculos em meio ao caos sem perder sua essência e seu Líder. Aos poucos o autor percebe que muitas das convicções que tinha, a Igreja já havia ensinado e exposto anos antes - a verdade imutável que move a humanidade, diz ele. 

Sem ideal, a humanidade anda em círculos de destruição de si mesma, substituindo ideiais por outros como se trocam as meias. "O progresso é preguiçosos, pois podemos ficar parados esperando que ele aconteça" diz Chesterton enquanto que propagar a Verdade - esta com v maiúsculo - nos exige esforço e sair do lugar comum tal qual a Igreja sempre o fez desde o início.

Ortodoxia é muito mais do que um testemunho de fé de Chesterton no Cristianismo, mas também é um verdadeiro tratado de como chegar a esta fé em um mundo que deu as costas para o seu Criador. 


Nome: Ortodoxy
Autor: G.K.Chesterton
Editora: Ecclesiae
Nº de páginas: 280
Classificação:

Alice von Hildebrand é uma professora, filósofa e teóloga católica pouco conhecida no Brasil, tanto que é quase impossível encontrar qualquer livro dela traduzido para o português. Se você tem confiança no seu inglês, no entanto, eu recomendo a leitura do By Love Refined que eu havia comentando anteriormente em outro post.

Há diversos livros, revistas e blogs hoje em dia que se dispoem a dar dicas para jovens noivas e ou até mesmo as moças solteiras que desejam se casar um dia, porém infelizmente esses conselhos dessas fontes em sua maioria nunca são prudentes, pois falta a falta de conhecimento do que é verdadeiramente o matrimônio, transformando algo tão sagrado e belo num mero passatempo e uso da outra pessoa para suprir carência. 



O que encanta nas cartas trocadas entre duas personagens - Lily e Julie - é a sabedoria de uma mulher que já passou por vários empercalços no casamento para deixá-lo em um estágio de perfeita harmonia - talvez isso sendo uma reflexão do próprio casamento da autora.

Alice vai na contramão no mundo, e de forma simples mostra que pequenos sacrifícios diários e o conhecimento de si mesma são necessários para manter a harmonia dentro lar, e a esposa - seu temperamento, modo de lidar com os problemas conjugais e as virtudes - são o verdadeiro segredo chave para um casamento ser bem sucedido.

Em um mundo cada vez mais egoísta, no qual as famílias são as que me sofrem, sacrifício e doação pelo amado nunca se fez tão necessário e By Love Refined nos recorda e ensina o que realmente importa.



Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa alguma,
Sem outra luz nem guia
Além da que no coração me ardia.

Trecho do poema "Noite Escura" de São João da Cruz

São João da Cruz, santo e místico da Igreja ensina que todo cristão irá passar por uma noite escura, a noite em que nos sentiremos abandonados e mais sozinhos do que nunca. Uma noite de tormentas e lágrimas, a noite mais difícil da sua vida. O silêncio de Deus irá ser mais forte do que nunca, tal qual o mesmo silêncio do Sábado Sagrado quando toda a Terra silenciou enquanto o Cristo completava a Sua última missão. 

Em Silêncio (Silence) baseado no livro de Shusaku Endo e dirigido por Martin Scorsese, um dos meus diretores favoritos, vemos esta grande noite escura na figura dos padres jesuítas portugueses Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Guarupe (Andrew Driver) que saem da Europa em missão em busca do padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson) dado como perdido e apóstata no Japão feudal do século 17, onde o catolicismo foi banido pelo governo japonês, unido à uma perseguição sangrenta pelos budistas a todos que se suspeitassem serem cristãos. 

Antes de assistir ao longa li algumas críticas de sites católicos que se detiveram com afinco ao tema da apostasia. De fato, comparado com o glorioso martírio dos santos que morreram por sua fé, ser um apóstata (mesmo nas circunstâncias extremas do filme) não é de glória nenhuma, mas sim grande vergonha - o que o longa deixa em evidência e foi a arma de combate escolhida pelo governo japonês para varrer o catolicismo do país. 


O padre Rodrigues demonstra até a metade do filme o orgulho e amor que tinha por Cristo e por sua fé, chegando ao ponto de comparar a si mesmo com o Salvador em uma cena pertubadora. A fé do jesuíta passa a ser posta à prova de maneira cruel ao ver aqueles que tanto amava martirizados, em parte por culpa dele mesmo. Aos poucos ele começa a se questionar se Deus ouvia suas orações e preces desesperadas, enquanto que via o pior do ser humano e aprendia o perdoar setenta vezes sete na figura de Kichijiro, apóstata da pior espécie. 

O silêncio reina durante todo o filme que não tem trilha sonora, a ponto dele se tornar opressivo e desesperador, assim como o coração do padre Rodrigues. É de se perceber que seu desejo de evangelização era em parte pela vaidade de querer fazer grandes obras, talvez maiores do que a capacidade dele. É somente no sofrimento ao sentir o peso da cruz que se perceber até onde a sua fé é capaz de ir, sendo assim lembrei da negação de São Pedro no Evangelho da Paixão em vários momentos. No entanto, é difícil ter certeza somente pelo filme se ele negou de coração sua fé ou não, pois a cena é ambígua creio que de forma proposital para deixar esta dúvida.

Apesar disso, o problema do filme é justamente a ambiguidade e o relativismo da fé, que se assistido por uma pessoa menos esclarecida, pode levá-la ao erro e a perdição. Sendo assim, é preciso tomar muito cuidado com a mensagem moralmente duvidosa sobre a apostasia apresentada em Silêncio.

O mérito do filme em si mesmo é mostrar este outro lado nada glorioso e nem bonito da vida de muitos cristãos até os dias de hoje. Particularmente foi um filme difícil de assistir, pois não foram poucas as cenas em que eu mesma me identifiquei na pele do padre Rodrigues, implorando que o silêncio do Criador fosse quebrado e eu tivesse as respostas que eu buscava em meio à angústia e as lágrimas. Não sei se já passei pela minha noite escura, porém nos últimos anos eu tive um prelúdio dela. 


Mas é no silêncio que escutamos a Voz Dele e por mais que questionamos Seus desígnios o tempo todo, Ele também sofre conosco - tal qual se vê no final do filme - e sem percebemos a graça se opera. É importante passar pela noite escura, mas sem esquecer que o sol se levanta ao raiar do dia.

Silêncio é um retrato sofrido e doloroso do peso da cruz do começo ao fim, ao ponto do próprio telespectador ficar sem esperança. Contudo essa virtude sempre renasce, por mais pantonoso que seja os corações, e a chama da fé do protagonista é reacendida, de forma tímida. O mundo vive um grande Sábado do silêncio de Deus depois que a humanidade O rejeitou - porém é sempre possível ouvir Sua Voz que sussurra nos corações, basta querer e buscar.



Título: Silence
Ano: 2016
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Jay Cocks, Martin Scorsese
Gênero: Drama Histórico
País: EUA/Taiwan/México

Contém spoilers

Sendo mulher, é óbvio que muitos dos problemas masculinos atuais eu realmente não compreenda totalmente, mesmo buscando formação, principalmente de pessoas que entendam do assunto, ou seja, homens que lutam por uma masculinidade santa, incluindo também os sacerdotes, além de toda a doutrina católica sobre o assunto. Meu foco em si é estudar e viver a feminilidade, mas como ambos — masculinidade e feminilidade — são polos complementares, creio que seja muito importante nós moças compreendermos o sexo oposto e vice versa.

Sendo assim, este texto não tem nenhuma intenção de ensinar nenhum homem a ser homem, o que seria ridículo. No entanto, com o pouco que sei sobre o assunto e por conhecer a obra de Austen por muitos anos, creio que seja válido os pontos citados a respeito das diversas facetas dos seus personagens masculinos — afinal de contas a ficção boa parte das vezes, nas mãos de um escritor talentoso, representa a realidade tal como ela é.

Sou leitora de romances desde que me entendo por gente. Cresci lendo romances com histórias de amor, alguns bons, outros nem tanto, alguns inesquecíveis, outras sofríveis. Mas nenhum autor(a) me fascinou tanto sobre a questão do relacionamento entre homens e mulheres como Jane Austen.

Jane Austen (1785 -1817) nasceu em Hampshire na Inglaterra e escreveu seis romances que marcaram a literatura britânica do período regencial até os dias atuais, além de outros trabalhos póstumos, mas que não são o foco desse texto. O livro mais famoso da autora é Orgulho e Preconceito (1813) já bem citado por aqui.

Meu primeiro contato com a obra de Austen foi aos quinze anos com o romance acima citado, seguido de Razão e Sensibilidade (1811) Mansfield Park (1814) Emma (1815) A Abadia de Northanger (1817) e o meu segundo favorito da escritora, Persuasão (1817) os dois últimos publicados logo após sua morte. Os romances em geral retratam a vida da Inglaterra rural do final do século 18, com toques de ironia e sarcasmo que chega a ser bem engraçado em várias passagens, além das questões do casamento, dinheiro e a moral da época.

Não é surpresa que a maioria do público de Austen é esmagadoramente feminino, pelos romances sempre terem um casal central que passa por diversas peripécias e mal entendidos até finalmente se casarem no final do livro — o que sejamos francos, é muito gostoso de ler e torcer por eles. Contudo os heróis masculinos de Austen, longe de serem homens perfeitos, têm muito a ensinar a qualquer rapaz de boa índole que busca uma masculinidade santa e à imagem do Criador.

Não precisa ir muito longe em perceber que a verdadeira masculinidade está em crise e sendo atacada pela modernidade, assim como a feminilidade. Hoje temos dois extremos: os maricas que não assumem seu papel de homem e os machões que acha que comer carne e “pegar todas” é o ápice de todo homem. Nada mais falso e deturpado.

São João Paulo II em sua Teologia do Corpo nos ensina que uma das virtudes masculinas é o sacrifício e a força (seja física e emocional) para servir ao próximo, em especial a mulher. Além disso, o homem também possui o dom de iniciar o amor, quando por exemplo, cria coragem o suficiente para o cortejo, sem mencionar o início para a vida e a paternidade. É de fato uma missão belíssima do homem dada por Deus, mas infelizmente com o nosso mundo caído, tudo ficou distorcido.

É possível, no entanto, redescobrir essas virtudes na literatura com os heróis de Jane Austen, esses sendo jovens rapazes que quando se encontram na cruzilhada do amor, tomam decisões às vezes certas, às vezes erradas, mas de uma forma ou de outra, descobrem a si mesmos e as virtudes e como devem amar uma mulher.

Eu poderia falar de Mr. Darcy de Orgulho e Preconceito que é o personagem mais famoso, porém eu já escrevi um pequeno ensaio sobre ele no blog. Temos o exemplo de perseverança e paciência nele e no Coronel Brandon de Razão e Sensibilidade com seu amor não correspondido por Marianne Dashwood. No mesmo romance, vemos a coragem e o crescimento de Edward Ferrars que deixa de ser um garoto influenciado pela mãe e cresce como homem ao propor casamento para Elinor, mesmo perdendo toda a herança que lhe é de direito por contrariar a mãe, assim como Henry Tilney em Abadia de Northanger com a diferença deste último ser menos dramático e mais uma comédia. Em Orgulho e Preconceito também vemos a falta de confiança de Mr. Bingley em si mesmo, mas também vemos sua benevolência e bom coração ao perdoar Mr. Darcy.

Em Emma, vemos a maturidade e bons princípios de Mr. Knightley que com carinho, mostra para a personagem principal de mesmo nome seus erros e equívocos, e com muita dor vê a amada dar atenção a outro menos digno dela, assim como o Coronel Brandon. Em Persuasão é nítido como o capitão Frederick Wentworth perdoou sua amada Anne Elliot por suas decisões mesquinhas no passado, o suficiente para depois de anos separados, pedir a mão dela em casamento de novo. Em Mansfield Park vemos Edmund Betram que sempre foi um ótimo rapaz se deixar influenciar negativamente em seus princípios e acaba magoando a protagonista Fanny Price, até que finalmente ele se dá conta dos seus erros, assume sua vocação de clérigo e casa com Fanny contra a expectativa de todos (a Igreja Anglicana é muito presente nas obras de Austen).

Anne Elliot e Capitão Wentoworth em Persuasão - BBC 2007
A autora nos mostra, assim como em suas personagens femininas, diversas facetas de personagens masculinos — facetas virtuosas e errôneas — que existem no mundo real. Eu poderia falar também da má índole masculina de George Wickham, Frank Churchill, Henry Crawford e John Willoughby; a soberba e falta de princípios de Philip Elton e William Collins, exemplos de como não ser um homem, mas o texto ficaria desnecessariamente grande.

Contudo, sempre no final do livro, os co-protagonistas, diferentes dos citados acima, não são os mesmos e eles possuem em comum apenas uma virtude: a coragem. A coragem de ser rejeitado pela amada, a coragem de enfrentar medos, a coragem para crescer como homem e a coragem para sofrer por amor e engolir o orgulho e a vaidade.

Imagino que a razão da autora saber retratar tão bem a masculinidade em vários aspectos em seus romances, é pelo fato dela ter tido e convivido com seis irmãos, cada um com particularidades únicas que devem tê-la inspirado e muito ao criar seus próprios personagens - assim como o seu relacionamento próximo com sua única irmã, Cassandra inspirou o relacionamento de Elizabeth e Jane em Orgulho e Preconceito.

Por isso que ainda hoje eles são personagens amados da literatura. Mas infelizmente devido ao nosso mundo secularizado, não mais se acredita no amor cortês e puro entre homens e mulheres, são muitas vezes vistos com desprezo e até chamados de irreais, como já li em vários outros textos.

Não meus queridos, os homens de Jane Austen não são irreais. Muito pelo contrário, são tão humanos e comuns que todos eles passam por uma longa jornada de descoberta para finalmente estarem aptos a amar sem reservas as protagonistas dos livros e cultivarem as virtudes típicas de seu sexo. As histórias austenianas merecem sim serem observadas por rapazes de boa fé que desejam se tornarem bons homens com uma masculinidade santa. Em especial, os romances da autora ensina a perseverarem em relação às nós mulheres e também, não se deixarem abater diante das situações inconstantes da vida.

Uma mulher de verdade, que desabrochou na feminilidade dada por Deus, não quer ouro e prata, mas sim uma rocha que a apoie no furacão de emoções; que a descubra e a encontre como as pérolas no fundo do mar; que seja um soldado de Cristo para o que der e vier junto dela rumo ao Céu.

A literatura, principalmente da era vitoriana, possui bons exemplos de masculinidade. Futuramente, quem sabe, pretendo falar também dos heróis e heroínas de dois outros grandes autores desse período, Elizabeth Gaskell e Charles Dickens. Acredito que valha pena procurar boas referências na ficção, além Daquele que é referência de homem, Cristo Jesus.

Uma das grandes revelações da música britânica nos últimos quatro anos foi o trio London Grammar. Formada em Nottingham, Inglaterra - mesma terra de outra revelação da música, o cantor Jake Bugg - o trio é formado por Hanna Reid, Dominic Major e Dan Rothman. O grupo faz parte de um gênero musical pouco conhecido, o downtempo ou trip rock, estilo essencialmente inglês que surgiu nos anos 90.

Com um ar melancólico e surreal, embalado pela voz poderosa, mas ao mesmo tempo suave de Hanna, London Grammar conseguiu chamar a atenção da mídia e do público já no disco de estréia, If You Wait (2013). 

O que é bem curioso, pois é impossível negar que nas últimas décadas os artistas, em especial os mais conhecidos estão ficando cada vez mais plastificados e com músicas artificiais, cheias de auto-tune e exageradamente altas. Contudo, graças a Deus, bandas como o London Grammar vão na completa contramão do que se toca nas rádios hoje em dia.

Tenho um carinho especial pelo single Strong do primeiro álbum do grupo que foi uma das músicas que mais escutei no último ano. Com uma letra poderosa e muito bonita, a canção retrata bem um período turbulento da minha vida, cheio de dúvidas, inseguranças e medos, mas que agora eu olho para trás e vejo o quanto que tudo isso me fez crescer muito como ser humano. Sendo assim, Strong tem um lugar especial no meu coração:



Recentemente a banda lançou três belíssimas músicas novas que estarão no próximo disco do trio que sai este ano, o Truth is a Beautiful Thing. Gosto em especial da canção Big Picture por conta do seu refrão marcante, seguida por Root for You e a música que leva o nome do disco. Para a alegria de muitas, a banda veio para ficar e é com ansiedade que aguardo o segundo álbum ;)