“Não temo mais a revelação de meus fracassos ou os de outrem. Passei a acreditar, no final, que não há vergonha na verdade, apenas liberdade; e que, com o tempo, toda história tem o direito de ser contada”.

Talvez esse seja o texto mais difícil que escreverei até hoje. Eu imagino a própria Jane se debruçando na sua escrivaninha, pena e tinta à mão, forçando a mente para relatar os fatos mais importantes de sua vida. Porém para a minha decepção, o livro é ficcional. No começo eu realmente acreditei que foi a própria Austen que escreveu este livro de memórias de tão bem elaborado e real à sua personalidade. Uma pena que boa parte é invenção de Syrie James, mas isso não tira o seu mérito. 

Jane Austen foi uma das grandes autoras que exerceu uma influência enorme na minha vida desde o dia que terminei de ler Razão e Sensibilidade em meados de 2009. Não somente as personagens carismáticas de seus seis romances me conquistaram, mas também seu bom humor polido e sarcasmo educado me fascinaram, a tal ponto que o meu próprio estilo de escrever bebe muito da fonte da autora inglesa, se estendendo até ao meu humor um pouco ácido.

Em suas "memórias" vemos uma Jane menos irônica e mais contemplativa e madura, que olha para o passado, não com amargura por todas as derrotas que sofreu, em especial a perda do grande amor da sua vida por circunstâncias fora do alcance dela, mas com sobriedade. De fato, a autora tinha uma convicção muito firme sobre relacionamentos fundados no amor mútuo, não no interesse financeiro como era o costume de sua época e como se pode observar em seus romances. 

Não concordo com a afirmação de que Austen era uma mulher “à frente de seu tempo”, pois isso não quer dizer absolutamente nada pelos simples fato dela desejar amar, algo que sempre foi a busca de qualquer pessoa de qualquer época com um bom coração e mente. 

Ainda existe o amor por interesse, não somente por dinheiro, mas por carência, por conveniência, para suprir alguma pressão seja de amigos ou família, por medo da solidão ou para satisfazer o próprio ego. Devo dizer que nessa questão tenho uma gota de desilusão pelas decepções da vida que passei e presenciei de outras pessoas e nosso século está muito pior do que o século de Austen no campo amoroso.

A verdade, no entanto, é que o amor exige muito sacrifício e conhecimento profundo de si mesmo, às vezes um altruísmo heroico pensando no bem da pessoa amada, não no próprio. Esse pequeno livro de memórias da autora me mostrou não somente ela como a escritora, mas como uma mulher de carne e osso, viva em suas palavras sinceras de carinho por sua família, em especial a irmã mais velha Cassandra e claro, seu misterioso amante, trabalho podemos dizer impecável de Siryie James de incorporar a icônica escritora.

É visível também a solidão de Austen ser ela mesma até o fim de sua vida e não trair a si mesma apenas por capricho e conforto. A experiência profunda do único amor de sua vida culmina no seu romance mais maduro e poético, Persuasão com a diferença do final feliz da heroína depois de muito sofrimento, o que não aconteceu com sua criadora.

Beleza e educação nem sempre é sinônimo de virtude, mas podem ser grandes aliados na conquista de um grande amor. A autora narra como esses atrativos foram fundamentais para que ela pudesse de fato se interessar pelo misterioso Sr. Ashford - o que foi um nome inventado por ela para proteger a verdadeira identidade do seu amante - mas que eram apenas a superfície da alma nobre e virtuosa do cavalheiro no qual se apaixonara.

Jane diz com toda clareza que só seria capaz de se casar caso seu cônjuge apreciasse sua personalidade e vice versa. Os atrativos iniciais se tornaram pífios se comparados com a nobreza de espírito e caráter do Sr. Ashford para com ela e com todos à sua volta. O amor desinteressado de ambos, o respeito mútuo e a maturidade do casal era um prelúdio do que poderia ter sido um casamento muito feliz.

O que é mais difícil no nosso tempo, em todos os meios sociais, é este amor desinteressado que Austen em seus romances descreve com todo fervor e sinceridade. Não somente isso, as pessoas no momento dos flertes e de conhecer alguém, ficam apenas focadas nos atrativos iniciais, principalmente a beleza (a educação nem conta tanto mais para nosso tempo como no da autora) e simplesmente param aí, achando que somente o aspecto físico irá suprir a necessidade de amar por toda a vida.

Não se dão mais o trabalho de conhecer profundamente a alma do afortunado (a), compreender sua personalidade e seu caráter como ser humano. Enfim, conhecer quem ele (a) é de fato para poder amá-lo (a). A beleza virou o único critério para o amor em nossos tempos e não é à toa que as pessoas estão cada vez mais infelizes em seus relacionamentos.

Acredito sim como a autora deste livro que Austen não virou uma “solteirona” amargurada e insuportável como vemos muitas em nossa sociedade. Muito pelo contrário, tornou-se sábia e aproveitou todo o tempo que lhe restava antes da doença debilitá-la por completo para escrever, inspirada nos acontecimentos de sua vida - algo que por muito tempo foi o motivo de tortura da autora por conta dos nãos que precisou ouvir ao procurar ser publicada.

Mesmo com duzentos anos nos separando, a escritora inglesa com seus belíssimos romances foi capaz de me devolver a perseverança sobre o amor, a retirar um pouco a casca grossa e o meu desdém por relacionamentos e a não desistir tão facilmente de encontrar uma alma no qual eu possa verdadeiramente amar de forma livre, sem interesses e retornos. 


Fonte: Tumblr

Eu prometi este texto há bastante tempo, desde o início do projeto #LendoShakespeare aqui no blog - que eu prometo dar continuidade. Então acho que agora é o momento de compartilhar alguns breves comentários de como a obra do Bardo Inglês influenciou não somente a minha formação literária, mas também minha formação como ser humano.

Não diria que possuo vanglórias ou histórias extraordinárias de um insight, porém me considero sim uma pessoa sortuda por ter crescido lendo literatura de qualidade, desde os livros juvenis até os clássicos. Isso se deve por incentivo familiar desde cedo e pela excelente biblioteca pública no qual frequentei por anos próxima à minha casa, onde peguei diversos livros emprestados durante os anos de escola.

Na época eu tinha entre 14 e 15 anos quando peguei Romeu e Julieta para ler pela primeira vez. Não era, pois, uma versão adaptada para nossa linguagem de hoje, mas sim o texto integral. O mesmo se seguiu com Macbeth, O Rei Lear e Hamlet, que já naqueles anos se tornou minha obra shakesperiana favorita. Das tragédias se seguiram as comédias Sonho de Uma Noite de Verão, A Megera Domada, O Mercador de Veneza e a "dramédia" A Tempestade, minha segunda peça favorita do Bardo. 

Li também na mesma época diversos sonetos acompanhados de um conto intrigante e divertidíssimo do irlandês Oscar Wilde que tem Shakespeare e a misteriosa dedicatória de um dos seus diversos sonetos como tema central, o conto O Retrato do Sr. W.H. Se vocês acham que somente os fãs de Game of Thrones que escrevem teorias mirabolantes sobre a série, vocês não viram nada do que o Oscar Wilde faz neste conto rs!

Sem dúvidas as peças shakesperianas foram (e ainda são) as leituras mais desafiadoras que já fiz, que apesar de eu não ter compreendido com total clareza os dramas dos personagens retratados e todas as suas nuances por ser muito jovem, eu já identifiquei nas peças experiências humanas muito superiores a qualquer uma que eu já tinha vivido e já vivi. Foi com Shakespeare que eu percebi a força que um personagem (pessoa) possui em uma história (vida) e como suas ações podem influenciar diversas outras personagens, seja decisões com benevolência, seja com destruição.

Essa pequena observação foi o suficiente para eu perceber que algumas pessoas de carne e osso também podem ser como as personagens das tragédias shakesperianas: implacáveis, destruidoras e egoístas, que vão até o fim de seus propósitos, arrastando tudo e todos pela frente, e somente param para perceber o estado de loucura que se encontram quando já é muito tarde para voltar atrás. Melhor exemplo do que isso é o próprio Hamlet que fascinou e me fascina até hoje por seu peso como personagem que carrega o mundo inteiro nos ombros - porém vou deixar meus comentários sobre esta peça em particular para outro post.

Shakespeare me apresentou essa realidade do peso do caráter humano de uma forma que eu jamais teria sabido ou aprendido por mim mesma e na minha simples vida. Abri de fato, os olhos para as pessoas ao meu redor, para os seus lados benevolentes e também sombrios, para suas fraquezas e forças, algo que eu sou eternamente grata ao Bardo de Stratford-upon-Avon. 



Recomendo:

Oito Palpites sobre as Tragédias e algo sobre o Sofrimento Humano por Fernando Simões. 

- Olá, Bill Shakespeare! por Dionisius Amendola


Histórias de guerras já foram contadas incansavelmente nos últimos anos no cinema e na televisão, a maioria grande produções que foram aclamadas pela crítica e pelo público. Este ano tivemos um filme de guerra vencedor do Oscar - Até o Último Homem - e 2017 está sendo generoso com os fãs do gênero como eu com a estréia de Dunkirk.

Em 1940 soldados franceses e ingleses estão encurralados em Dunkirk na França pelo alemães, obrigando os aliados a montarem a Operação Dínamo para resgatar o exército. O longa acompanha três histórias: Farrier (Tom Hardy) um piloto que precisa destruir um avião inimigo que se aproxima de Dunkirk, Dawson (Mark Rylance) um civil britânico em alto mar que leva o seu barco de passeio para ajudar no resgate e o jovem soldado Tommy (Fionn Whitehead) que está preso na praia tentando sair a qualquer custo.


A experiência de ver o filme no cinema ajuda na imersão que o longa metragem insere no expectador, transformando a experiência muito mais real e perturbadora pelo horror e desespero da guerra. Com poucos diálogos e a maioria dos personagens secundários sem nome, o filme é quase todo narrado de duas formas: pelas expressões e ações dos protagonistas e pela trilha sonora.

As decisões de cada um dos vários protagonistas são decisivas e estas influenciam uns aos outros durante todo o filme. Um personagem secundário que chamou a atenção por sua curta história foi George (Barry Keoghan) um ajudante de Dawson na embarcação que acompanha no resgate. Ele e Ferrier são uma prova que as circunstâncias da vida e os nossos sonhos nem sempre são aquilos que imaginamos. Às vezes é necessário aceitar alguns destinos para que nos realizemos como pessoas. 


Se os diálogos são mínimos, a trilha sonora de Hans Zimmer faz o papel de narradora da história do começo ao fim. Ela não está ali de fundo somente para marcar uma cena, mas ela se encontra presente em quase todo o filme. Os sons de bombas se misturam com os violinos e violoncelos conduzindo a história até o inevitável clímax. 

Conheço o trabalho do compositor de outros grandes filmes, mas creio que em Dunkirk Zimmer alcançou um nível de criatividade difícil de superar, assim como o diretor Christopher Nolan. Não foram poucos os momentos que o ar ficou pesado e o coração quase parou pela tensão na tela. 

Não há grandes sequências de batalhas, o que deixa as circunstâncias como a inimiga dos personagens para com os seus objetivos, criando um crescendo de suspense de tirar realmente o fôlego. No fim as três histórias se entrelaçam nas últimas cenas e os destinos de cada um finalmente é traçado. 

Dunkirk se destaca não somente por ser um bom filme de Segunda Guerra, mas coloca também o público como testemunhas dos dramas dos personagens. O cinema anda batido e mais do mesmo pelo 3D e dificilmente um filme blockbuster nos dá algo de novo para se aproveitar. Porém Nolan aproveita o que se tem de bom da tecnologia cinematográfica atual para entregar uma experiência nova de cinema. Um dos melhores do ano, sem dúvidas.

Ps.: Vale pena ver no IMAX!






Título: Dunkirk
Ano: 2017
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan
Gênero: Guerra, Drama Histórico
País: EUA/UK/França e Holanda


Na vida de um poeta, minha amada,
sofrer é ter razão de uma existência, porém uma existência desgraçada...


Com estas palavras carregadas da amargura de um jovem poeta que descobre as desilusões da vida, retiradas do poema Madrugada, D. G. Ducci resume em poucas palavras não somente a sua trajetória - ou podemos dizer de seu personagem - mas todos os percalços de poetas que já viveram e morreram antes dele.

Alquimia da Tempestade e Outros Poemas é dividida em quatro partes. Nas duas primeiras encontramos a biografia de um poeta que nasce e contempla as delícias da vida e dos primeiros amores. O autor traça a jornada do Eu lírico com poemas cheios da alegria juvenil e paixões, onde as preocupações soam pífias se comparados com os tons narrativos dos poemas da última parte, onde vemos um eu lírico mais maduro e que já presenciou alguns sofrimentos.

No entanto, o Eu lírico já demonstra na fase inicial uma preocupação em querer ser verdadeiro para consigo mesmo e com tudo ao seu redor, o que irá se mostrar essencial nos poemas finais.


Os poemas acompanham fases diferentes da vida do eu lírico que vai se transformando aos nossos olhos em cada verso lido, como uma metamorfose. Não é simples. No entanto é assim como em qualquer poesia, o leitor tenta compreender o significado dos versos contidos, o que deixa a leitura da coletânea mais interessante, se não intrigante. 

Lembro que senti a mesma coisa quando li alguns poemas de Álvares de Azevedo e Fernando Pessoa. Percebe-se que o autor bebeu muito da fonte deles, além da clara influência shakesperiana em alguns poemas e da obra em si mesma, o que a enriquece e até mesmo estabelece uma continuidade artística com os poetas citados, mesmo tênue.

A terceira parte do livro é mais madura, sombria e amarga, porque temos a morte sendo a amada, o amor apaixonado de outrora agora transformado em dor pelas circunstâncias da vida e um poeta que finalmente nasce por completo, de corpo e alma. Ele precisa enfrentar o peso da existência e o lado feio da realidade que o cerca, caminho este que todos os poetas devem enfrentar sem vacilar para conseguirem ganhar todas as batalhas - e o Eu lírico, no fim, demonstra estar pronto para tarefa.



Título: Alquimia da Tempestade e Outros Poemas
Autor: D. G. Gucci
Editora: 7 Letras
Nº de páginas: 105
Classificação:

Livro cortesia da Oasys Cultural.

Hemingway é um dos diversos autores que zumbia nos meus ouvidos nos últimos tempos enquanto eu procurava livros para inserir nas minhas listas de leitura. Porém a oportunidade só veio agora depois dele ser escolhido como leitura do Clube do Livro de Junho do blog A Vida Humana..

Paris é um Festa é um livro de memórias biográficas do escritor durante os anos 20 enquanto viveu e conviveu em Paris com diversos outros artistas dentre eles escritores famosos como Ezra Pound, Gertrude Stein e F. Scott Fietzgerald. 

O olhar de Hemingway sobre os seus colegas escritores acaba por humanizá-los a tal ponto desses grandes nomes da literatura se tornaram também personagens cheios de suas peculiaridades, incluindo qualidades e defeitos. Destaco em especial o relacionamento de Hemingway com o Fietzgerald  - autor de O Grande Gatsby (1922) - que rendeu momentos cômicos no final da obra.

Hemingway possui um estilo narrativo de ser objetivo na mensagem deseja passar ao leitor sem floreios ou lirismo das escolas literárias românticas anteriores a ele. Isso porém não perde a beleza e a poesia de sua forma de escrita que flui entre as páginas ao descrever a sua Paris, cheia de cores, sons e garrafas de champagne, enquanto ele se dedicava aos seus contos para conseguir sobreviver neste mundo tão diferente dos EUA, sua terra natal.

É interessante notar que o narrador-personagem coloca uma ênfase em dois coisas nesses anos narrados em suas memórias: a pobreza que se encontrava e a dificuldade dele como escritor em esboçar um romance completo, o que irá culminar no final de Paris é uma Festa junto com outros acontecimentos que mudará a vida de Hemingway para sempre. 

A obra em si mesma é um testemunho de um escritor em um ponto de transição de sua vida que ainda não havia atingido o clímax, mas que se encaminhava para ele nestes anos narrados em Paris. Hemingway é muitas vezes modesto em relação a sua obra e posição como escritor quando se comparava a um de seus colegas. Até pode se afirmar que ele não achava que conseguiria produzir uma grande obra e nos dá a entender que ele acreditava que morreria esquecido. 

O livro possui um clima nostálgico e saudosista de uma época que não irá mais voltar, de um tempo que ficou gravado em memórias e fotografias em preto e branco quando a arte ainda possuía um valor moral e belo para alguns homens e mulheres, em um período conturbado da história como foi o sangrento século XX. Todo esse cenário entre guerras e arte irá influenciar os romances de Hemingway como O Velho e o Mar (1952), o citado no livro O Sol Também se Levanta (1926) e Por que os Sinos Dobram (1940).

Este mundo de pintores e escritores bebendo e convivendo juntos meio que sem querer, cada um buscando à sua maneira fazer sua arte é o que fascina Hemingway que por consequência fascina também o leitor. Não é possível dizer que tudo narrado por ele realmente aconteceu ou tudo é ficção, como diz no primeiro capítulo do livro. Pode se dizer que o livro é ambas as coisas misturadas entre ficção e realidade que se completam de fatos que poderiam terem sido completamente esquecidos. 

As memórias do autor nos jogam uma luz para não somente entender seu legado, mas também para conhecermos o homem por trás das palavras. Paris já deixou de ser uma festa há muito tempo, porém seus momentos de glória estão gravados nestas memórias de Ernest Hemingway para sempre no qual ele mesmo diz, foram anos que foi muito pobre porém feliz. 


Tìtulo: A Moveable Feast
Autor: Ernest Hemingway
Editora: Bertrand Brasil
Nº de páginas: 252
Classificação:




Aproveitando o embalo do que está sendo até o momento uma maravilhosa 10ª temporada - e para a tristeza dos fãs de Peter Capaldi como eu, a última do ator no papel principal -listei cinco episódios no qual tenho muito carinho, aqueles episódios que gosto de rever sempre que posso seja pelo roteiro ou pela atuação brilhante do elenco.

Para quem chegou de pará-quedas aqui e não sabe que raios é Doctor Who - mas convenhamos, você viveu numa caverna nesses últimos cinco anos para não ter ouvido nem falar da série até hoje #brincadeirinha - é uma série britânica de ficção científica/aventura com quase 54 anos de existência. 

A série narra as aventuras de um Senhor do Tempo chamado Doctor (ou Doutor) que viajava numa máquina do tempo com formato de cabine de polícia londrina chamada TARDIS sempre com uma (s) companheiras (os) na maioria das vezes humanos. Por ser um alienígena, ele quando está à beira da morte, se regenera em um novo corpo, mas mantém suas memórias - esta razão de tantos atores interpretarem o mesmo personagem e a série ter durado tanto tempo.

A produção depois de um longo hiatus retornou em 2005 e continua até hoje. Em 2013 a série se popularizou no Brasil com a exibição do especial de 50 anos no cinema, no qual eu tive o privilégio de participar da transmissão simultânea junto com outros fãs da série. 

De 2013 para cá, os fãs brasileiros de Doctor Who saíram do limbo e de comunidades obscuras da internet, se tornando finalmente conhecidos junto com a série. Conheci Doctor Who em meados de 2012 e não larguei mais, e já até fiquei perto do David Tennant (meu Doutor favorito) na Comic Con Experience ☺

Eis a minha seleção de episódios favoritos até hoje do homem louco com uma caixa. E cuidado com os spoilers:

Menção honrosa: The Doctor's Wife


Doctor: 11º (Matt Smith)
Companions: Amy Pond (Karen Gillan) e Rory Williams (Arthur Darvill)

Eu não poderia deixar esse episódio de fora por conta de um nome: Neil Gaiman. Sim, o próprio escreveu o roteiro deste episódio que é um dos melhores da era do 11º Doctor. Quem conhece o trabalho do Gaiman sabe que ele não brinca em serviço e nos entrega uma história que além de acrescentar muita coisa à mitologia da série, nos presenteia com a TARDIS ganhando vida em um corpo de uma mulher!

A relação Doctor-TARDIS é a mais importante que existe em toda a série e isso fica em evidência neste episódio. Temos diálogos memoráveis entre dois, de fazer rir e chorar.





5 - The Empty Child / The Doctor Dances


Doctor: 9º (Christopher Eccleston)
Companion: Rose Tyler (Billie Piper)

Poucos fãs gostam de verdade da primeira temporada o que acho uma injustiça com o 9º Doctor, mas admito que a tosquice pode incomodar os desavisados. 

Porém quando se chega no arco The Empty Child / The Doctor Dances a temporada melhora bastante, além de introduzir o querido Capitão Jack Harkness que irá aparecer mais vezes na série ajudando o Doctor, e porque se passa no meio da Segunda Guerra Mundial durante o ataque alemão da Blitz em Londres. 

No meio do confronto, o Doctor e a Rose encontram um grupo de crianças sem-teto aterrorizadas por Jamie "a criança vazia" com uma máscara de gás. É aquele episódio que dá uns pesadelos depois de assistir, é considerado um dos mais aterrorizantes da série, mas que possui uma conclusão marcante, incluindo a fala do 9º Doctor no fim:







4 - The Snowmen


Doctor: 11º (Matt Smith)

Companion: Clara Oswald (Jenna Coleman)

Ah esse especial de Natal de 2012 é uma mistura de conto infantil com drama que gosto demais, além de ser a introdução da minha segunda companion favorita, Clara Oswald - não necessariamente a verdadeira Clara, mas isso fica claro na sétima temporada.

Temos também a primeira aparição desde o reboot de um vilão antigo da série, The Great Intelligence que será crucial na história tanto do Doctor quanto da Clara, assim como também no especial de 50 anos. A interação entre Clara e o Doctor é muito divertida neste especial de natal e já foi neste episódio que ela me conquistou, além de todo aquele clima gostoso de Natal.









3 - The Fires of Pompeii


Doctor: 10º (David Tennant)
Companion: Donna Noble (Catherine Tate)

Às vezes o Doctor se intromete na História para ajudar, mas também acaba provocando o mal sem querer - contradição que considero essencial para entender o personagem, e neste episódio isso fica bem evidente. Donna se mostra como uma mulher com um coração muito nobre (sim foi trocadilho) pois antes desse episódio ele aparentava ser uma mulher frívola para se importar com os outros. Foi nessa história que a moça ganhou a minha admiração por fazer o Doctor enxergar o que ele não conseguia ver e o cargo de companion favorita ❤

E tem a participação de um ator que virou Doctor...








2 - The End of Time (Parte I e II)


Doctor: 10º (David Tennant)
Companion: Wilfred (Bernad Cribbins)

Última história do meu querido 10º Doutor e não poderiam ter feito uma conclusão de sua jornada de forma mais poderosa e emocionante, com direito ao retorno do meu vilão favorito, o Master (John Simm) revelações sobre a Guerra do Tempo e a aparição de Rassilon e companhia limitada.

É uma das histórias mais pesadas da série, principalmente pela carga emocional nos últimos minutos. David Tennant está melhor do que nunca neste episódio e é nítido a entrega total do ator na sua despedida da série, o que para nós foi um presente e tanto. Ainda considero a melhor regeneração até hoje - veremos se Peter vai fazer eu mudar de ideia. É o segundo melhor episódio de toda a nova era de Doctor Who e favorito!





E o primeiro lugar vai para....






1 - Heaven Sent


Doctor: 12º (Peter Capaldi)
Companion: Nenhuma #feels

Um grande ator, com um roteiro incrível e uma direção que faz jus ao talento de Peter Capaldi. Um episódio de 50 minutos que é um puro monólogo, sustentando-se apenas no talento do ator escocês. Se fosse para definir Heaven Sent em uma palavra seria brilhante. Assim como muitos fãs, considero este o melhor episódio de toda a série moderna, pois acho difícil algum outro ator fazer o que Peter fez.

Peter é o meu segundo Doctor favorito depois do David e para mim foi maravilhoso ver um roteiro que valorizava seus atributos como ator - assim como toda a 9ª temporada - serem finalmente bem usados. O enredo é focado em duas coisas: existência e luto. Sombrio, até assustador e agoniante em algumas partes, Heaven Sent é sem dúvidas um episódio que fez história nesses mais de 50 anos de série e uma verdadeira obra de arte *palmas*

PS: Peter deveria ter sido indicado para um BFTA!






Contém spoilers

Mary Lennox é uma garota insuportável. Após a morte catastrófica de seus pais, a garota deixa a Índia e volta para a Inglaterra para viver com seu tio, Mr. Craven em Misselthwaite, Yorkshire, este um homem atormentado pelo passado. Sozinha e abandonada pela família, Mary é acostumada a se importar somente consigo mesma e seus caprichos. Porém os segredos de Misselthwaite, incluindo um misterioso jardim trancado por dez anos, desperta na garota grande curiosidade que irá mudar sua vida para sempre.

Publicado em 1911 na Inglaterra, O Jardim Secreto (The Secret Garden) da inglesa Frances Hodgson Burnett é considerado um dos romances infanto-juvenis mais importantes da literatura do século XX, reconhecimento que veio somente póstumo à morte da autora em 1924.

O romance é divido em duas grandes partes: na primeira parte a autora narra os fatos pelo ponto de vista de Mary, incluindo sua consciência, emoções e pensamentos mais profundos a respeito das pessoas dos quais terá que conviver em Misselthwaite e as peculiaridades das mesmas, principalmente em relação a Dickon – importante personagem da trama – um garoto encantador que vira seu amigo no meio do livro e Ben Weatherstaff, o jardineiro.

O mistério do jardim trancado torna-se a obsessão de Mary e um propósito tão forte na menina que com sua eventual descoberta, mudanças profundas acontecem na garota a ponto dela passa a ver a vida e as pessoas com verdadeira compaixão e humanidade.

A metáfora do despertar para a vida pelo jardim secreto se concretiza de forma plena no segundo protagonista da história que toma as rédeas da narrativa até o fim, o impetuoso Colin Craven, primo da garota e filho de Mr. Craven. 

Órfão de mãe e abandonado pelo pai e trancado no próprio quarto por ser julgado doente, o menino acredita piamente que é um aleijado e que morrerá em breve. Cheio de birras e excessos de raiva, o encontro de ambos é um dos melhores momentos do livro, pois mostra a Mary tal como ela era como pessoa quando chegou a casa.


Se Mary tomou consciência de si mesma e das pessoas ao seu redor, o despertar de Colin quando é apresentado ao jardim com a amizade da prima e de Dickon é mais arrebatador e profundo. O sentido da vida é essencial para o ser humano para lhe dar um norte, pois sem essa bússola que o conduzirá até o final, não é de se estranhar que muitos se percam o curso da própria vida, acarretando até mesmo em doenças como no caso de Colin.

Contudo a mudança no garoto é tão profunda que é como se ele nascesse novamente. Sem saber a quem agradecer pelo milagre, sua simples razão lhe dizia para agradecer a Mágica do jardim tal como ele chamava, que não só o curou de ficar aleijado, mas também curou a sua alma – mágica esta que ele descobre mais tarde vir de um Criador, e a busca por Ele passa a ser o sentido da sua vida dali em diante.

Dickon é um personagem fácil de gostar logo de cara por ser uma criança adorável e brincalhona, ele sendo um espelho do que Mary e Colin se tornam no final do livro. De crianças birrentas, infelizes e sozinhas, é com frescor que vemos os três sendo o que são verdadeiramente: crianças que brincam, que contam piadas e que riem, ou sejam, felizes. 

Este renascer afeta toda a família Craven que estava divida pela dor e pelo remorso, salvando-a de um destino melancólico. Nada mais belo este milagre vir de três crianças nas suas simplicidades de vocabulário e sentimentos, sábias o suficiente para apreciar os mistérios da existência que os adultos não conseguem entender. 

A narrativa perde o tom sombrio do começo do romance e no fim é quase como se estivéssemos lendo uma outra história, pois é grande a diferença de sentimento e uso da cadência, ou seja, o ritmo das palavras colocado pela autora que é lírico e suave como uma brisa. 

A linguagem musical de todo o livro desperta no leitor o convite de agradecer pelo mistério da vida aos olhos de Mary, Colin e Dickon que souberam apreciá-la como um verdadeiro presente. Não é possível compreender estes mistérios completamente – e jamais o faremos em nossa condição humana – mas no final de O Jardim de Secreto as crianças mostram que é sempre possível mudar o rumo da sua história para um enredo melhor. 

Algumas considerações sobre o inglês da obra:

Para quem já está em um bom estágio, no nível intermediário para avançando, não será problema a leitura. Porém por se tratar de um livro do começo do século passado, o inglês é mais arcaico e a autora usa muitos fonemas na escrita para denotar o sotaque de Yorkshire, o que pode atrapalhar a compreensão de alguns diálogos.