Fonte: Tumblr


Eu até tentei começar a edição do meu romance bobo do NaNoWrimo do ano passado mais cedo. Mas não deu. Em parte a culpa foi minha, em parte foram as circunstâncias da rotina que não permitiram eu me concentrar na história por muito tempo.

Quase um ano depois da maratona de 30 dias de escrita e 9 meses desde o dia que eu coloquei o ponto final no último capítulo, nestas últimas semanas eu peguei o texto novamente para dar continuidade na primeira edição do rascunho. Agora sinto que é sim um momento propício, pois já me desapeguei da história e mal lembro da narrativa. Ou seja, estou lendo o texto com outros olhos, outra perspectiva e acredito que até mais madura do que no começo do ano.

Este ano com os estudos e leituras que venho fazendo, a minha perspectiva em relação à escrita se expandiu. Sempre tive bons conhecimentos de escolas literárias, um pouco de teoria crítica e estilo. Porém a questão da profundidade de uma narração não era algo que eu estava ciente, era uma questão que estava arraigada no fundo da minha mente sem eu saber que estava ali.

Esse insight intelectual e literário - não sei ainda se este termo é o mais correto, mas vai ele mesmo - é um dos motivos que está me fazendo arrastar a edição da história mais do que eu esperava. A garota que escreveu aqueles diversos parágrafos há um ano não é exatamente a mesma de hoje e terei que lidar isso. Não com um distanciamento frio de quem eu era, porém com um pouco da maturidade literária e como pessoa que ganhei neste último ano.

Agora eu compreendo porque tantos escritores sofriam na hora de editar seus originais. Hemingway por exemplo, reescreveu durante a edição o final de A Farewell to Arms (1929) 39 vezes; Neil Gaiman escreve seus romances e só retornar a eles para a edição meses depois e por aí vai. Esse distanciamento entre a escrita do primeiro rascunho e a edição eu sempre gostei da ideia, e até agora, dos capítulos que já estão na primeira edição (pretendo fazer três edições minhas antes de publicar em qualquer lugar) tem sido muito gratificante.

Estou gostando muito dessa segunda etapa de redescobrir o enredo, rever as dúvidas e problemas de enredo que eu deixei sem solução com outros olhos; algumas questões agora estão fáceis de resolver, mas que durante a escrita me tiraram o sono durante dias. 

Por enquanto estou na parte "mais fácil" do ofício. Porém já pensei um pouco sobre publicação e mantenho a ideia inicial de publicar a história numa plataforma de autoplicação como o Wattpad, por exemplo. O problema é que, sendo bem sincera, nunca gostei dele. Acho o design feio e confuso, poucas opções de categorias, uma mistura de inglês com português nas recomendações que eu não acho legal, já que a intenção é ler originais da língua materna. Naveguei na plataforma procurando algum original que me chamasse atenção, porém não achei um que valesse a pena gastar o tempo.

Isso tudo me desanimou com a ferramenta e procurei outras alternativas, como por exemplo, o Sweek. Ainda não mexi nele, mas só o design mais limpo já ganhou pontos comigo. Pretendo também testar a publicação de original do Social Spirit que gosto bastante e possui um público bem amplo.

Entretanto, não quero assinar o romance com o meu nome verdadeiro. Eu não gostava da idéia de usar um pseudônimo, no entanto agora a coisa me parece bem tentadora e interessante. É divertido pensar em criar um novo nome para si mesma, o que causa um certo mistério e até mesmo um alívio e segurança de não ser reconhecida pelo nome original. Para uma pessoa muito privada como eu, que não gosta de se expor, a idéia de um pseudônimo é excelente e cai como uma luva. Se for possível, irei até mais longe e adotarei o que a escritora italiana Elena Ferrante fez: famosa, mas reclusa sem ser reconhecida no termo literal da palavra.

Apesar disso, concordo plenamente com ela que a imagem do autor não deve afetar a obra literária. Hoje em dia a imagem pública dos escritores famosos anda muito badalada na mídia, seja de forma positiva, seja de forma negativa o que não deveria afetar a obra de arte literária em si mesma. As pessoas, no entanto, são incapazes de separar alhos dos bugalhos e os próprios escritores estão caindo na armadilha de transformarem suas obras, que deveriam ser arte, em panfletos de propagandas de qualquer bandeira que defendam. 

O que é a arte? A arte sempre deve retratar alguma coisa condizente com a realidade, por mais fantasiosa e absurda que seja. Ela possui uma forma em si mesma e um conteúdo desta forma, mas que jamais deve se sobrepor a esta forma acabada e fechada que é um quadro, uma escultura ou uma coletânea de poesias. A arte deve estar sempre disposta a ser interpretada de diversas maneiras diferentes, ao ambíguio e às vezes o subjetivo do sujeito que a contempla. Quantas interpretações podemos tirar da Monalisa de Da Vinci? Quantas conclusões diversas podemos chegar lendo uma prosa de Dostoiskévi? 

Por mais que artistas e autores possuem alguma convicção ideológica, ela jamais deve se sobrepor a obra de arte em si, pois se fecha o ramo das interpretações e deixa de ser arte para virar qualquer outra coisa, na maioria das vezes bizarra. No caso da literatura não é diferente, já que as palavras escolhidas e montadas em uma forma com um conteúdo - que pode chocar, fazer rir, fazer chorar,amedrontar - é arte por si mesma, muito mais que seu conteúdo.

Não é de se espantar que tantos escritores, alguns ainda no começo da carreira, não conseguem tocar o âmago do seu leitor, por muitas vezes não possuírem a bagagem dos clássicos e dos grandes autores (vou falar sobre isso mais para frente) e também por imporem uma idéia pessoal de forma tão óbvia que dá vergonha alheia - e acredite, já me deparei com esses e fico me perguntando se ninguém de fibra e honestidade chamou a atenção do sujeito.

Se não existe mil interpretações diferentes para um mesmo texto, se não existe as entrelinhas, se não existe a abertura para a imaginação do leitor para tal cena ou tal diálogo; se o autor tranca as portas deste imaginário, a literatura não é mais arte. Ponto. Se não fosse assim, não estaríamos ainda até hoje, mais de dois séculos depois, discutindo se Capitu (personagem de Dom Casmurro de Machado de Assis) traiu ou não o Bentinho. E essa discussão jamais terá e não se chegará a uma conclusão definitiva por lei, sendo esta a grande virtude da arte. 

Até eu ser capaz de fazer isso, continuo editando e suando no meu manuscrito bobo para ao menos deixá-lo digno de possuir uma arte literária. 

The Reconciliation of Titania and Oberon - Joseph Paton. Óleo sob canvas (1847)
Os amantes e loucos têm cérebros tão fervilhantes, fantasias tão imaginativas, que acabam por conceber mais do que a fria razão pode compreender.


Sonho de Uma Noite de Verão - Ato V, Cena I

Publicado em 1600 Sonho de Uma Noite de Verão (A Midsummer's Night Dream) é uma das comédias mais famosas do Bardo. Numa noite de verão quatro amantes atenienses cruzam o caminho de de Titânia a rainha das fadas e Oberon durante a preparação do casamento do duque de Atenas, Teseu e a Rainha das Amazonas, Hipólita. Para a festa de casamento que não foi somente um, trabalhadores locais preparam uma peça amadora trágica de tão ruim e engraçada, que poderia tudo ter sido um grande sonho...

Um dos elementos mais notáveis nesta peça é a influência direta da mitologia grega em todo o enredo, incluindo os elementos da fantasia, muito mais explícito do que em outras peças do autor. Enquanto que em A Tempestade ou Conto de Inverno, o elemento fantástico é mais sutil, em Sonho de Uma Noite de Verão o encantamento de duendes a mando de Oberon causa toda a confusão dos personagens. 

Há algo de curioso de Teseu desposar Hipólita, já que nos contos mitológicos, Teseu se casou com outra amazona, Antíope após uma guerra com as mesmas. A personagem Helena, a rejeitada por Demétrio que preferia sua amiga Hérmia, pode se referir a descrita Helena de Tróia. Hérmia seria a rainha das fadas e ninfas; Lisandro era um espartano que derrotou a frota ateniense durante a Guerra do Peloponeso e por fim, Demétrio (que existiu ao contrário dos outros) foi um mártir e santo militar grego ortodoxo. 

Misturar todos esses personagens - excluindo Demétrio - já conhecidos do grande público da época elizabetana em uma história inusitada, deve ter causado risos da platéia que assistiu a representação. Essa característica é crucial para passar a ideia de surrealidade da história, que para nós brasileiros, muitas da vezes ignorantes com todo esse panorama histórico e mitológico do teatro shakesperiano, deixamos passar. 

Mas Shakespeare deixa uma dúvida no ar: será mesmo que Oberon e o duende Bute foram responsáveis pelos desencontros e brigas entre Demétrio, Lisandro, Hérmia e Helena, os quatro amantes? Será mesmo que a pobre Titânia, enganada por Oberon, se apaixonou por um asno? O que poderia se chamar sonho, pode ter sido um grande pesadelo para alguns personagens!

Não é a primeira vez que Shakespeare brinca com a questão dos sentidos humanos que são falhos e limitados. Podemos ver isso em Otelo, claro de forma muito mais trágica. O mundo real em nossa volta pode não ser habitado por fadas e duendes, porém pode nos enganar nas situações diversas da vida de forma fácil demais. A facilidade de como os quatro amantes amam e desamam numa mesma noite, retrata como as paixões são efêmeras e inconstantes, às vezes até cômica como o Bardo nos mostra tão bem.

O mundo fantástico das fadas se choca com a realidade pitoresca de Atenas e de seu governante. A normalidade e o "absurdo" dos sonhos convivem lado a lado. Os personagens atravessam a fina camada da realidade para um momento que não possuem nenhum controle, que não faz o menor sentido - uma realidade do avesso e até assustadora, mas com o trunfo de transformar tudo isso em comédia.  

No último ato temos uma peça dentro de uma peça dos trabalhadores locais para o casamento triplo, que nada mais é do que uma sátira engraçadíssima de Romeu e Julieta, publicada um anos antes. Se Shakespeare nos faz chorar com suas tragédias, ele também é capaz de nos fazer rir com suas comédias e sorrir com os finais felizes do amor sólido e real, que por fim prevalece. 


- Recomendação de leitura: A Midsummer Night's Dream por G.K. Chesterton


“Não temo mais a revelação de meus fracassos ou os de outrem. Passei a acreditar, no final, que não há vergonha na verdade, apenas liberdade; e que, com o tempo, toda história tem o direito de ser contada”.

Talvez esse seja o texto mais difícil que escreverei até hoje. Eu imagino a própria Jane se debruçando na sua escrivaninha, pena e tinta à mão, forçando a mente para relatar os fatos mais importantes de sua vida. Porém para a minha decepção, o livro é ficcional. No começo eu realmente acreditei que foi a própria Austen que escreveu este livro de memórias de tão bem elaborado e real à sua personalidade. Uma pena que boa parte é invenção de Syrie James, mas isso não tira o seu mérito. 

Jane Austen foi uma das grandes autoras que exerceu uma influência enorme na minha vida desde o dia que terminei de ler Razão e Sensibilidade em meados de 2009. Não somente as personagens carismáticas de seus seis romances me conquistaram, mas também seu bom humor polido e sarcasmo educado me fascinaram, a tal ponto que o meu próprio estilo de escrever bebe muito da fonte da autora inglesa, se estendendo até ao meu humor um pouco ácido.

Em suas "memórias" vemos uma Jane menos irônica e mais contemplativa e madura, que olha para o passado, não com amargura por todas as derrotas que sofreu, em especial a perda do grande amor da sua vida por circunstâncias fora do alcance dela, mas com sobriedade. De fato, a autora tinha uma convicção muito firme sobre relacionamentos fundados no amor mútuo, não no interesse financeiro como era o costume de sua época e como se pode observar em seus romances. 

Não concordo com a afirmação de que Austen era uma mulher “à frente de seu tempo”, pois isso não quer dizer absolutamente nada pelos simples fato dela desejar amar, algo que sempre foi a busca de qualquer pessoa de qualquer época com um bom coração e mente. 

Ainda existe o amor por interesse, não somente por dinheiro, mas por carência, por conveniência, para suprir alguma pressão seja de amigos ou família, por medo da solidão ou para satisfazer o próprio ego. Devo dizer que nessa questão tenho uma gota de desilusão pelas decepções da vida que passei e presenciei de outras pessoas e nosso século está muito pior do que o século de Austen no campo amoroso.

A verdade, no entanto, é que o amor exige muito sacrifício e conhecimento profundo de si mesmo, às vezes um altruísmo heroico pensando no bem da pessoa amada, não no próprio. Esse pequeno livro de memórias da autora me mostrou não somente ela como a escritora, mas como uma mulher de carne e osso, viva em suas palavras sinceras de carinho por sua família, em especial a irmã mais velha Cassandra e claro, seu misterioso amante, trabalho podemos dizer impecável de Siryie James de incorporar a icônica escritora.

É visível também a solidão de Austen ser ela mesma até o fim de sua vida e não trair a si mesma apenas por capricho e conforto. A experiência profunda do único amor de sua vida culmina no seu romance mais maduro e poético, Persuasão com a diferença do final feliz da heroína depois de muito sofrimento, o que não aconteceu com sua criadora.

Beleza e educação nem sempre é sinônimo de virtude, mas podem ser grandes aliados na conquista de um grande amor. A autora narra como esses atrativos foram fundamentais para que ela pudesse de fato se interessar pelo misterioso Sr. Ashford - o que foi um nome inventado por ela para proteger a verdadeira identidade do seu amante - mas que eram apenas a superfície da alma nobre e virtuosa do cavalheiro no qual se apaixonara.

Jane diz com toda clareza que só seria capaz de se casar caso seu cônjuge apreciasse sua personalidade e vice versa. Os atrativos iniciais se tornaram pífios se comparados com a nobreza de espírito e caráter do Sr. Ashford para com ela e com todos à sua volta. O amor desinteressado de ambos, o respeito mútuo e a maturidade do casal era um prelúdio do que poderia ter sido um casamento muito feliz.

O que é mais difícil no nosso tempo, em todos os meios sociais, é este amor desinteressado que Austen em seus romances descreve com todo fervor e sinceridade. Não somente isso, as pessoas no momento dos flertes e de conhecer alguém, ficam apenas focadas nos atrativos iniciais, principalmente a beleza (a educação nem conta tanto mais para nosso tempo como no da autora) e simplesmente param aí, achando que somente o aspecto físico irá suprir a necessidade de amar por toda a vida.

Não se dão mais o trabalho de conhecer profundamente a alma do afortunado (a), compreender sua personalidade e seu caráter como ser humano. Enfim, conhecer quem ele (a) é de fato para poder amá-lo (a). A beleza virou o único critério para o amor em nossos tempos e não é à toa que as pessoas estão cada vez mais infelizes em seus relacionamentos.

Acredito sim como a autora deste livro que Austen não virou uma “solteirona” amargurada e insuportável como vemos muitas em nossa sociedade. Muito pelo contrário, tornou-se sábia e aproveitou todo o tempo que lhe restava antes da doença debilitá-la por completo para escrever, inspirada nos acontecimentos de sua vida - algo que por muito tempo foi o motivo de tortura da autora por conta dos nãos que precisou ouvir ao procurar ser publicada.

Mesmo com duzentos anos nos separando, a escritora inglesa com seus belíssimos romances foi capaz de me devolver a perseverança sobre o amor, a retirar um pouco a casca grossa e o meu desdém por relacionamentos e a não desistir tão facilmente de encontrar uma alma no qual eu possa verdadeiramente amar de forma livre, sem interesses e retornos. 


Fonte: Tumblr

Eu prometi este texto há bastante tempo, desde o início do projeto #LendoShakespeare aqui no blog - que eu prometo dar continuidade. Então acho que agora é o momento de compartilhar alguns breves comentários de como a obra do Bardo Inglês influenciou não somente a minha formação literária, mas também minha formação como ser humano.

Não diria que possuo vanglórias ou histórias extraordinárias de um insight, porém me considero sim uma pessoa sortuda por ter crescido lendo literatura de qualidade, desde os livros juvenis até os clássicos. Isso se deve por incentivo familiar desde cedo e pela excelente biblioteca pública no qual frequentei por anos próxima à minha casa, onde peguei diversos livros emprestados durante os anos de escola.

Na época eu tinha entre 14 e 15 anos quando peguei Romeu e Julieta para ler pela primeira vez. Não era, pois, uma versão adaptada para nossa linguagem de hoje, mas sim o texto integral. O mesmo se seguiu com Macbeth, O Rei Lear e Hamlet, que já naqueles anos se tornou minha obra shakesperiana favorita. Das tragédias se seguiram as comédias Sonho de Uma Noite de Verão, A Megera Domada, O Mercador de Veneza e a "dramédia" A Tempestade, minha segunda peça favorita do Bardo. 

Li também na mesma época diversos sonetos acompanhados de um conto intrigante e divertidíssimo do irlandês Oscar Wilde que tem Shakespeare e a misteriosa dedicatória de um dos seus diversos sonetos como tema central, o conto O Retrato do Sr. W.H. Se vocês acham que somente os fãs de Game of Thrones que escrevem teorias mirabolantes sobre a série, vocês não viram nada do que o Oscar Wilde faz neste conto rs!

Sem dúvidas as peças shakesperianas foram (e ainda são) as leituras mais desafiadoras que já fiz, que apesar de eu não ter compreendido com total clareza os dramas dos personagens retratados e todas as suas nuances por ser muito jovem, eu já identifiquei nas peças experiências humanas muito superiores a qualquer uma que eu já tinha vivido e já vivi. Foi com Shakespeare que eu percebi a força que um personagem (pessoa) possui em uma história (vida) e como suas ações podem influenciar diversas outras personagens, seja decisões com benevolência, seja com destruição.

Essa pequena observação foi o suficiente para eu perceber que algumas pessoas de carne e osso também podem ser como as personagens das tragédias shakesperianas: implacáveis, destruidoras e egoístas, que vão até o fim de seus propósitos, arrastando tudo e todos pela frente, e somente param para perceber o estado de loucura que se encontram quando já é muito tarde para voltar atrás. Melhor exemplo do que isso é o próprio Hamlet que fascinou e me fascina até hoje por seu peso como personagem que carrega o mundo inteiro nos ombros - porém vou deixar meus comentários sobre esta peça em particular para outro post.

Shakespeare me apresentou essa realidade do peso do caráter humano de uma forma que eu jamais teria sabido ou aprendido por mim mesma e na minha simples vida. Abri de fato, os olhos para as pessoas ao meu redor, para os seus lados benevolentes e também sombrios, para suas fraquezas e forças, algo que eu sou eternamente grata ao Bardo de Stratford-upon-Avon. 



Recomendo:

Oito Palpites sobre as Tragédias e algo sobre o Sofrimento Humano por Fernando Simões. 

- Olá, Bill Shakespeare! por Dionisius Amendola


Histórias de guerras já foram contadas incansavelmente nos últimos anos no cinema e na televisão, a maioria grande produções que foram aclamadas pela crítica e pelo público. Este ano tivemos um filme de guerra vencedor do Oscar - Até o Último Homem - e 2017 está sendo generoso com os fãs do gênero como eu com a estréia de Dunkirk.

Em 1940 soldados franceses e ingleses estão encurralados em Dunkirk na França pelo alemães, obrigando os aliados a montarem a Operação Dínamo para resgatar o exército. O longa acompanha três histórias: Farrier (Tom Hardy) um piloto que precisa destruir um avião inimigo que se aproxima de Dunkirk, Dawson (Mark Rylance) um civil britânico em alto mar que leva o seu barco de passeio para ajudar no resgate e o jovem soldado Tommy (Fionn Whitehead) que está preso na praia tentando sair a qualquer custo.


A experiência de ver o filme no cinema ajuda na imersão que o longa metragem insere no expectador, transformando a experiência muito mais real e perturbadora pelo horror e desespero da guerra. Com poucos diálogos e a maioria dos personagens secundários sem nome, o filme é quase todo narrado de duas formas: pelas expressões e ações dos protagonistas e pela trilha sonora.

As decisões de cada um dos vários protagonistas são decisivas e estas influenciam uns aos outros durante todo o filme. Um personagem secundário que chamou a atenção por sua curta história foi George (Barry Keoghan) um ajudante de Dawson na embarcação que acompanha no resgate. Ele e Ferrier são uma prova que as circunstâncias da vida e os nossos sonhos nem sempre são aquilos que imaginamos. Às vezes é necessário aceitar alguns destinos para que nos realizemos como pessoas. 


Se os diálogos são mínimos, a trilha sonora de Hans Zimmer faz o papel de narradora da história do começo ao fim. Ela não está ali de fundo somente para marcar uma cena, mas ela se encontra presente em quase todo o filme. Os sons de bombas se misturam com os violinos e violoncelos conduzindo a história até o inevitável clímax. 

Conheço o trabalho do compositor de outros grandes filmes, mas creio que em Dunkirk Zimmer alcançou um nível de criatividade difícil de superar, assim como o diretor Christopher Nolan. Não foram poucos os momentos que o ar ficou pesado e o coração quase parou pela tensão na tela. 

Não há grandes sequências de batalhas, o que deixa as circunstâncias como a inimiga dos personagens para com os seus objetivos, criando um crescendo de suspense de tirar realmente o fôlego. No fim as três histórias se entrelaçam nas últimas cenas e os destinos de cada um finalmente é traçado. 

Dunkirk se destaca não somente por ser um bom filme de Segunda Guerra, mas coloca também o público como testemunhas dos dramas dos personagens. O cinema anda batido e mais do mesmo pelo 3D e dificilmente um filme blockbuster nos dá algo de novo para se aproveitar. Porém Nolan aproveita o que se tem de bom da tecnologia cinematográfica atual para entregar uma experiência nova de cinema. Um dos melhores do ano, sem dúvidas.

Ps.: Vale pena ver no IMAX!






Título: Dunkirk
Ano: 2017
Direção: Christopher Nolan
Roteiro: Christopher Nolan
Gênero: Guerra, Drama Histórico
País: EUA/UK/França e Holanda


Na vida de um poeta, minha amada,
sofrer é ter razão de uma existência, porém uma existência desgraçada...


Com estas palavras carregadas da amargura de um jovem poeta que descobre as desilusões da vida, retiradas do poema Madrugada, D. G. Ducci resume em poucas palavras não somente a sua trajetória - ou podemos dizer de seu personagem - mas todos os percalços de poetas que já viveram e morreram antes dele.

Alquimia da Tempestade e Outros Poemas é dividida em quatro partes. Nas duas primeiras encontramos a biografia de um poeta que nasce e contempla as delícias da vida e dos primeiros amores. O autor traça a jornada do Eu lírico com poemas cheios da alegria juvenil e paixões, onde as preocupações soam pífias se comparados com os tons narrativos dos poemas da última parte, onde vemos um eu lírico mais maduro e que já presenciou alguns sofrimentos.

No entanto, o Eu lírico já demonstra na fase inicial uma preocupação em querer ser verdadeiro para consigo mesmo e com tudo ao seu redor, o que irá se mostrar essencial nos poemas finais.


Os poemas acompanham fases diferentes da vida do eu lírico que vai se transformando aos nossos olhos em cada verso lido, como uma metamorfose. Não é simples. No entanto é assim como em qualquer poesia, o leitor tenta compreender o significado dos versos contidos, o que deixa a leitura da coletânea mais interessante, se não intrigante. 

Lembro que senti a mesma coisa quando li alguns poemas de Álvares de Azevedo e Fernando Pessoa. Percebe-se que o autor bebeu muito da fonte deles, além da clara influência shakesperiana em alguns poemas e da obra em si mesma, o que a enriquece e até mesmo estabelece uma continuidade artística com os poetas citados, mesmo tênue.

A terceira parte do livro é mais madura, sombria e amarga, porque temos a morte sendo a amada, o amor apaixonado de outrora agora transformado em dor pelas circunstâncias da vida e um poeta que finalmente nasce por completo, de corpo e alma. Ele precisa enfrentar o peso da existência e o lado feio da realidade que o cerca, caminho este que todos os poetas devem enfrentar sem vacilar para conseguirem ganhar todas as batalhas - e o Eu lírico, no fim, demonstra estar pronto para tarefa.



Título: Alquimia da Tempestade e Outros Poemas
Autor: D. G. Gucci
Editora: 7 Letras
Nº de páginas: 105
Classificação:

Livro cortesia da Oasys Cultural.

Hemingway é um dos diversos autores que zumbia nos meus ouvidos nos últimos tempos enquanto eu procurava livros para inserir nas minhas listas de leitura. Porém a oportunidade só veio agora depois dele ser escolhido como leitura do Clube do Livro de Junho do blog A Vida Humana..

Paris é um Festa é um livro de memórias biográficas do escritor durante os anos 20 enquanto viveu e conviveu em Paris com diversos outros artistas dentre eles escritores famosos como Ezra Pound, Gertrude Stein e F. Scott Fietzgerald. 

O olhar de Hemingway sobre os seus colegas escritores acaba por humanizá-los a tal ponto desses grandes nomes da literatura se tornaram também personagens cheios de suas peculiaridades, incluindo qualidades e defeitos. Destaco em especial o relacionamento de Hemingway com o Fietzgerald  - autor de O Grande Gatsby (1922) - que rendeu momentos cômicos no final da obra.

Hemingway possui um estilo narrativo de ser objetivo na mensagem deseja passar ao leitor sem floreios ou lirismo das escolas literárias românticas anteriores a ele. Isso porém não perde a beleza e a poesia de sua forma de escrita que flui entre as páginas ao descrever a sua Paris, cheia de cores, sons e garrafas de champagne, enquanto ele se dedicava aos seus contos para conseguir sobreviver neste mundo tão diferente dos EUA, sua terra natal.

É interessante notar que o narrador-personagem coloca uma ênfase em dois coisas nesses anos narrados em suas memórias: a pobreza que se encontrava e a dificuldade dele como escritor em esboçar um romance completo, o que irá culminar no final de Paris é uma Festa junto com outros acontecimentos que mudará a vida de Hemingway para sempre. 

A obra em si mesma é um testemunho de um escritor em um ponto de transição de sua vida que ainda não havia atingido o clímax, mas que se encaminhava para ele nestes anos narrados em Paris. Hemingway é muitas vezes modesto em relação a sua obra e posição como escritor quando se comparava a um de seus colegas. Até pode se afirmar que ele não achava que conseguiria produzir uma grande obra e nos dá a entender que ele acreditava que morreria esquecido. 

O livro possui um clima nostálgico e saudosista de uma época que não irá mais voltar, de um tempo que ficou gravado em memórias e fotografias em preto e branco quando a arte ainda possuía um valor moral e belo para alguns homens e mulheres, em um período conturbado da história como foi o sangrento século XX. Todo esse cenário entre guerras e arte irá influenciar os romances de Hemingway como O Velho e o Mar (1952), o citado no livro O Sol Também se Levanta (1926) e Por que os Sinos Dobram (1940).

Este mundo de pintores e escritores bebendo e convivendo juntos meio que sem querer, cada um buscando à sua maneira fazer sua arte é o que fascina Hemingway que por consequência fascina também o leitor. Não é possível dizer que tudo narrado por ele realmente aconteceu ou tudo é ficção, como diz no primeiro capítulo do livro. Pode se dizer que o livro é ambas as coisas misturadas entre ficção e realidade que se completam de fatos que poderiam terem sido completamente esquecidos. 

As memórias do autor nos jogam uma luz para não somente entender seu legado, mas também para conhecermos o homem por trás das palavras. Paris já deixou de ser uma festa há muito tempo, porém seus momentos de glória estão gravados nestas memórias de Ernest Hemingway para sempre no qual ele mesmo diz, foram anos que foi muito pobre porém feliz. 


Tìtulo: A Moveable Feast
Autor: Ernest Hemingway
Editora: Bertrand Brasil
Nº de páginas: 252
Classificação: