Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa alguma,
Sem outra luz nem guia
Além da que no coração me ardia.

Trecho do poema "Noite Escura" de São João da Cruz

São João da Cruz, santo e místico da Igreja ensina que todo cristão irá passar por uma noite escura, a noite em que nos sentiremos abandonados e mais sozinhos do que nunca. Uma noite de tormentas e lágrimas, a noite mais difícil da sua vida. O silêncio de Deus irá ser mais forte do que nunca, tal qual o mesmo silêncio do Sábado Sagrado quando toda a Terra silenciou enquanto o Cristo completava a Sua última missão. 

Em Silêncio (Silence) baseado no livro de Shusaku Endo e dirigido por Martin Scorsese, um dos meus diretores favoritos, vemos esta grande noite escura na figura dos padres jesuítas portugueses Sebastião Rodrigues (Andrew Garfield) e Francisco Guarupe (Andrew Driver) que saem da Europa em missão em busca do padre Cristóvão Ferreira (Liam Neeson) dado como perdido e apóstata no Japão feudal do século 17, onde o catolicismo foi banido pelo governo japonês, unido à uma perseguição sangrenta pelos budistas a todos que se suspeitassem serem cristãos. 

Antes de assistir ao longa li algumas críticas de sites católicos que se detiveram com afinco ao tema da apostasia. De fato, comparado com o glorioso martírio dos santos que morreram por sua fé, ser um apóstata (mesmo nas circunstâncias extremas do filme) não é de glória nenhuma, mas sim grande vergonha - o que o longa deixa em evidência e foi a arma de combate escolhida pelo governo japonês para varrer o catolicismo do país. 


O padre Rodrigues demonstra até a metade do filme o orgulho e amor que tinha por Cristo e por sua fé, chegando ao ponto de comparar a si mesmo com o Salvador em uma cena pertubadora. A fé do jesuíta passa a ser posta à prova de maneira cruel ao ver aqueles que tanto amava martirizados, em parte por culpa dele mesmo. Aos poucos ele começa a se questionar se Deus ouvia suas orações e preces desesperadas, enquanto que via o pior do ser humano e aprendia o perdoar setenta vezes sete na figura de Kichijiro, apóstata da pior espécie. 

O silêncio reina durante todo o filme que não tem trilha sonora, a ponto dele se tornar opressivo e desesperador, assim como o coração do padre Rodrigues. É de se perceber que seu desejo de evangelização era em parte pela vaidade de querer fazer grandes obras, talvez maiores do que a capacidade dele. É somente no sofrimento ao sentir o peso da cruz que se perceber até onde a sua fé é capaz de ir, sendo assim lembrei da negação de São Pedro no Evangelho da Paixão em vários momentos. No entanto, é difícil ter certeza somente pelo filme se ele negou de coração sua fé ou não, pois a cena é ambígua creio que de forma proposital para deixar esta dúvida.

O mérito do filme em si mesmo é mostrar este outro lado nada glorioso e nem bonito da vida de muitos cristãos até os dias de hoje. Particularmente foi um filme difícil de assistir, pois não foram poucas as cenas em que eu mesma me identifiquei na pele do padre Rodrigues, implorando que o silêncio do Criador fosse quebrado e eu tivesse as respostas que eu buscava em meio à angústia e as lágrimas. Não sei se já passei pela minha noite escura, porém nos últimos anos eu tive um prelúdio dela. 


Mas é no silêncio que escutamos a Voz Dele e por mais que questionamos Seus desígnios o tempo todo, Ele também sofre conosco - tal qual se vê no final do filme - e sem percebemos a graça se opera. É importante passar pela noite escura, mas sem esquecer que o sol se levanta ao raiar do dia.

Silêncio é um retrato sofrido e doloroso do peso da cruz do começo ao fim, ao ponto do próprio telespectador ficar sem esperança. Contudo essa virtude sempre renasce, por mais pantonoso que seja os corações, e a chama da fé do protagonista é reacendida, de forma tímida. O mundo vive um grande Sábado do silêncio de Deus depois que a humanidade O rejeitou - porém é sempre possível ouvir Sua Voz que sussurra nos corações, basta querer e buscar.



Título: Silence
Ano: 2016
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: Jay Cocks, Martin Scorsese
Gênero: Drama Histórico
País: EUA/Taiwan/México

Contém spoilers

Sendo mulher, é óbvio que muitos dos problemas masculinos atuais eu realmente não compreenda totalmente, mesmo buscando formação, principalmente de pessoas que entendam do assunto, ou seja, homens que lutam por uma masculinidade santa, incluindo também os sacerdotes, além de toda a doutrina católica sobre o assunto. Meu foco em si é estudar e viver a feminilidade, mas como ambos — masculinidade e feminilidade — são polos complementares, creio que seja muito importante nós moças compreendermos o sexo oposto e vice versa.

Sendo assim, este texto não tem nenhuma intenção de ensinar nenhum homem a ser homem, o que seria ridículo. No entanto, com o pouco que sei sobre o assunto e por conhecer a obra de Austen por muitos anos, creio que seja válido os pontos citados a respeito das diversas facetas dos seus personagens masculinos — afinal de contas a ficção boa parte das vezes, nas mãos de um escritor talentoso, representa a realidade tal como ela é.

Sou leitora de romances desde que me entendo por gente. Cresci lendo romances com histórias de amor, alguns bons, outros nem tanto, alguns inesquecíveis, outras sofríveis. Mas nenhum autor(a) me fascinou tanto sobre a questão do relacionamento entre homens e mulheres como Jane Austen.

Jane Austen (1785 -1817) nasceu em Hampshire na Inglaterra e escreveu seis romances que marcaram a literatura britânica do período regencial até os dias atuais, além de outros trabalhos póstumos, mas que não são o foco desse texto. O livro mais famoso da autora é Orgulho e Preconceito (1813) já bem citado por aqui.

Meu primeiro contato com a obra de Austen foi aos quinze anos com o romance acima citado, seguido de Razão e Sensibilidade (1811) Mansfield Park (1814) Emma (1815) A Abadia de Northanger (1817) e o meu segundo favorito da escritora, Persuasão (1817) os dois últimos publicados logo após sua morte. Os romances em geral retratam a vida da Inglaterra rural do final do século 18, com toques de ironia e sarcasmo que chega a ser bem engraçado em várias passagens, além das questões do casamento, dinheiro e a moral da época.

Não é surpresa que a maioria do público de Austen é esmagadoramente feminino, pelos romances sempre terem um casal central que passa por diversas peripécias e mal entendidos até finalmente se casarem no final do livro — o que sejamos francos, é muito gostoso de ler e torcer por eles. Contudo os heróis masculinos de Austen, longe de serem homens perfeitos, têm muito a ensinar a qualquer rapaz de boa índole que busca uma masculinidade santa e à imagem do Criador.

Não precisa ir muito longe em perceber que a verdadeira masculinidade está em crise e sendo atacada pela modernidade, assim como a feminilidade. Hoje temos dois extremos: os maricas que não assumem seu papel de homem e os machões que acha que comer carne e “pegar todas” é o ápice de todo homem. Nada mais falso e deturpado.

São João Paulo II em sua Teologia do Corpo nos ensina que uma das virtudes masculinas é o sacrifício e a força (seja física e emocional) para servir ao próximo, em especial a mulher. Além disso, o homem também possui o dom de iniciar o amor, quando por exemplo, cria coragem o suficiente para o cortejo, sem mencionar o início para a vida e a paternidade. É de fato uma missão belíssima do homem dada por Deus, mas infelizmente com o nosso mundo caído, tudo ficou distorcido.

É possível, no entanto, redescobrir essas virtudes na literatura com os heróis de Jane Austen, esses sendo jovens rapazes que quando se encontram na cruzilhada do amor, tomam decisões às vezes certas, às vezes erradas, mas de uma forma ou de outra, descobrem a si mesmos e as virtudes e como devem amar uma mulher.

Eu poderia falar de Mr. Darcy de Orgulho e Preconceito que é o personagem mais famoso, porém eu já escrevi um pequeno ensaio sobre ele no blog. Temos o exemplo de perseverança e paciência nele e no Coronel Brandon de Razão e Sensibilidade com seu amor não correspondido por Marianne Dashwood. No mesmo romance, vemos a coragem e o crescimento de Edward Ferrars que deixa de ser um garoto influenciado pela mãe e cresce como homem ao propor casamento para Elinor, mesmo perdendo toda a herança que lhe é de direito por contrariar a mãe, assim como Henry Tilney em Abadia de Northanger com a diferença deste último ser menos dramático e mais uma comédia. Em Orgulho e Preconceito também vemos a falta de confiança de Mr. Bingley em si mesmo, mas também vemos sua benevolência e bom coração ao perdoar Mr. Darcy.

Em Emma, vemos a maturidade e bons princípios de Mr. Knightley que com carinho, mostra para a personagem principal de mesmo nome seus erros e equívocos, e com muita dor vê a amada dar atenção a outro menos digno dela, assim como o Coronel Brandon. Em Persuasão é nítido como o capitão Frederick Wentworth perdoou sua amada Anne Elliot por suas decisões mesquinhas no passado, o suficiente para depois de anos separados, pedir a mão dela em casamento de novo. Em Mansfield Park vemos Edmund Betram que sempre foi um ótimo rapaz se deixar influenciar negativamente em seus princípios e acaba magoando a protagonista Fanny Price, até que finalmente ele se dá conta dos seus erros, assume sua vocação de clérigo e casa com Fanny contra a expectativa de todos (a Igreja Anglicana é muito presente nas obras de Austen).

Anne Elliot e Capitão Wentoworth em Persuasão - BBC 2007
A autora nos mostra, assim como em suas personagens femininas, diversas facetas de personagens masculinos — facetas virtuosas e errôneas — que existem no mundo real. Eu poderia falar também da má índole masculina de George Wickham, Frank Churchill, Henry Crawford e John Willoughby; a soberba e falta de princípios de Philip Elton e William Collins, exemplos de como não ser um homem, mas o texto ficaria desnecessariamente grande.

Contudo, sempre no final do livro, os co-protagonistas, diferentes dos citados acima, não são os mesmos e eles possuem em comum apenas uma virtude: a coragem. A coragem de ser rejeitado pela amada, a coragem de enfrentar medos, a coragem para crescer como homem e a coragem para sofrer por amor e engolir o orgulho e a vaidade.

Imagino que a razão da autora saber retratar tão bem a masculinidade em vários aspectos em seus romances, é pelo fato dela ter tido e convivido com seis irmãos, cada um com particularidades únicas que devem tê-la inspirado e muito ao criar seus próprios personagens - assim como o seu relacionamento próximo com sua única irmã, Cassandra inspirou o relacionamento de Elizabeth e Jane em Orgulho e Preconceito.

Por isso que ainda hoje eles são personagens amados da literatura. Mas infelizmente devido ao nosso mundo secularizado, não mais se acredita no amor cortês e puro entre homens e mulheres, são muitas vezes vistos com desprezo e até chamados de irreais, como já li em vários outros textos.

Não meus queridos, os homens de Jane Austen não são irreais. Muito pelo contrário, são tão humanos e comuns que todos eles passam por uma longa jornada de descoberta para finalmente estarem aptos a amar sem reservas as protagonistas dos livros e cultivarem as virtudes típicas de seu sexo. As histórias austenianas merecem sim serem observadas por rapazes de boa fé que desejam se tornarem bons homens com uma masculinidade santa. Em especial, os romances da autora ensina a perseverarem em relação às nós mulheres e também, não se deixarem abater diante das situações inconstantes da vida.

Uma mulher de verdade, que desabrochou na feminilidade dada por Deus, não quer ouro e prata, mas sim uma rocha que a apoie no furacão de emoções; que a descubra e a encontre como as pérolas no fundo do mar; que seja um soldado de Cristo para o que der e vier junto dela rumo ao Céu.

A literatura, principalmente da era vitoriana, possui bons exemplos de masculinidade. Futuramente, quem sabe, pretendo falar também dos heróis e heroínas de dois outros grandes autores desse período, Elizabeth Gaskell e Charles Dickens. Acredito que valha pena procurar boas referências na ficção, além Daquele que é referência de homem, Cristo Jesus.

Uma das grandes revelações da música britânica nos últimos quatro anos foi o trio London Grammar. Formada em Nottingham, Inglaterra - mesma terra de outra revelação da música, o cantor Jake Bugg - o trio é formado por Hanna Reid, Dominic Major e Dan Rothman. O grupo faz parte de um gênero musical pouco conhecido, o downtempo ou trip rock, estilo essencialmente inglês que surgiu nos anos 90.

Com um ar melancólico e surreal, embalado pela voz poderosa, mas ao mesmo tempo suave de Hanna, London Grammar conseguiu chamar a atenção da mídia e do público já no disco de estréia, If You Wait (2013). 

O que é bem curioso, pois é impossível negar que nas últimas décadas os artistas, em especial os mais conhecidos estão ficando cada vez mais plastificados e com músicas artificiais, cheias de auto-tune e exageradamente altas. Contudo, graças a Deus, bandas como o London Grammar vão na completa contramão do que se toca nas rádios hoje em dia.

Tenho um carinho especial pelo single Strong do primeiro álbum do grupo que foi uma das músicas que mais escutei no último ano. Com uma letra poderosa e muito bonita, a canção retrata bem um período turbulento da minha vida, cheio de dúvidas, inseguranças e medos, mas que agora eu olho para trás e vejo o quanto que tudo isso me fez crescer muito como ser humano. Sendo assim, Strong tem um lugar especial no meu coração:



Recentemente a banda lançou três belíssimas músicas novas que estarão no próximo disco do trio que sai este ano, o Truth is a Beautiful Thing. Gosto em especial da canção Big Picture por conta do seu refrão marcante, seguida por Root for You e a música que leva o nome do disco. Para a alegria de muitas, a banda veio para ficar e é com ansiedade que aguardo o segundo álbum ;)









Depois de muito matutar, achei que já era chegada a hora de eu comentar sobre as minhas aulas de jazz dance no qual estou frequentando desde agosto de 2016. Depois de anos de sedentarismo e mais tempo sentada em cadeiras de sala de aula do que fazendo qualquer exercício físico, no ano passado decidi que já era hora de exercitar o corpo. 

Contudo, como muitas pessoas nunca gostei do ambiente de academia, então resolvi que praticar e estudar um estilo de dança eu me daria melhor. Por muito tempo fiquei na dúvida entre o balé ou o jazz, pois apesar de ambos terem muitas semelhanças, há muitas diferenças também, principalmente na intenção da dança.

Lembro que quando eu era criança tive a oportunidade de aprender um pouco de balé, mas acabei deixando passar por um motivo que até hoje eu não sei - talvez fosse o medo da coisa que, para a minha cabecinha, era muito difícil. Anos depois, concluí que realmente balé assim como jazz são difíceis, mas não são algo do outro mundo.

Acabei optando pelo segundo em especial por não ser muito "rígido" como o balé, mesmo com as dificuldades dos passos de cada ritmo, no qual o jazz sofre a influência da dança contemporânea. Vamos dizer que já completei seis meses de aulas e ainda sim sofro um pouco para conseguir reproduzir as coreografias e cheguei a conclusão que tenho problemas com direita e esquerda...

Já paguei alguns micos, já levei uns tombos, errei passos e deixe o coitado do meu professor de cabelo em pé. Não vou negar que pensei várias vezes que eu estava doida, que aquilo não era para mim e que era melhor eu desistir. No entanto, encontrei no jazz uma maravilhosa fonte de perseverança, crescimento pessoal e conhecimento das minhas limitações e daquilo que eu sou capaz de fazer, sendo asism resolvi continuar aos trancos e barrancos. 


O jazz dance tem uma característica que eu gosto bastante que é justamente uma soltura maior dos movimentos, estes um pouco mais livres, além de possibilitar o trabalho da imaginação e invenção de passos e sequências do próprio bailarino. Os movimentos, no entanto, são mais intensos e rápidos dependendo da coreografia. 

É bom se desafiar de vez em quando e mesmo quando a frustração bate por não se conseguir reproduzir um développé decente, sigo em frente porque eu sei que vai chegar uma hora que irei conseguir :)


Beijos!
Faramir e Éowyn em O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei (2003)

Eu deveria estar escrevendo outras coisas neste momento, mas forças maiores fizeram com que eu viesse desabafar um pouco sobre um "fenômeno" que anda ocorrendo há bastante tempo entre leitores (as): o ataque aos romances com histórias de amor e clichês na ficção.

Antes de eu entrar na questão propriamente dita, devo lembrar que sim cada um tem o seu gosto seja para livro, cinema ou qualquer outra arte e que cada gênero possui o seu público específico, com gostos e sub-gêneros distintos em uma mesma cateogoria. O que eu pontuo aqui é algo que sempre me incomodou em resenhas, sejam em blogs por aí à fora, no Skoob, Goodreads ou outras redes sociais. São coisas que eu achava que eram algo da minha cabeça, mas depois de refletir vi que não, que é algo comum e padronizado em resenhas e que infelizmente, eu não concordo com tais posições.

O romance com casais centrais e histórias de amor sempre foram um gênero que esteve em alta e com um grande público. Não é surpresa encontrar títulos nas listas de mais vendidos tanto no Brasil quanto no exterior, provando o que todo mundo sabe: há leitores que gostam e compram livros desse segmento. 

Mas não é somente nos livros de romance que uma história de amor pode estar presente. Em um livro de aventura, suspense, sci-fi, terror, etc. às vezes você pode se deparar com um casal e uma história de amor, podendo ser um enredo secundário ou até mesmo um que se interligue à trama principal. 

Eu compreendo que muita gente não gosta quando isso acontece por vários motivos. Porém ter uma história de amor ou um casal inesperado se formando no meio de qualquer livro não é desmérito para nenhuma obra desde que seja bem feita - como eu sempre gosto de deixar claro nas minhas resenhas. A mesma coisa para o clichê, é legal e importante quando é bem usado e explorado pelo autor (a) e não há nada de errado nisso.

O que eu percebo é que sempre que existe um casal ou clichê em um livro de ficção, principalmente a fantasia, há um tratamento de torcer o nariz vindo de resenhistas que eu não consigo entender o por quê disso. Não sei se as pessoas não estão sendo muito claras na hora de escrever ou eu é quem não estou compreendendo a coisa toda, mas me incomoda muito que romance e o clichê são argumentos para se classificar um livro como bom ou ruim. 

Se o resenhista der boas razões para dizer que o livro é ruim por esses dois motivos, aí a história é outra. Contudo, não é o que acontece na maioria das resenhas dos blogs - e são muitas que eu já encontrei que não argumentam do por quê do romance e do clichê no livro X serem os pontos fracos. Eu já fui adepta dessa ideia, porém conforme o tempo foi passando e fui amadurecendo, percebi que é uma visão injusta e não há como você, seja como leitor ou escritor, fugir de fórmulas já existentes.

Já vi coisas do tipo "ah o livro tal é bom porque não tem romance e clichê". Hum espera, quer dizer que se um livro de fantasia tiver tais atributos é ruim? Qual é o problema se o autor resolver explorar uma subtrama (bem feita) de história de amor com os clichês típicos do gênero? Se é bem feito, bem estruturado e necessário, não é ruim, certo? Já aconteceu de eu me deparar com livros de fantasia com romance e clichê, mas que não foram felizes nisso (Tempest, por exemplo). 

Mas foram muitos os livros do gênero que eu peguei com histórias de amor maravilhosas, que se entrelaçam ao enredo principal e que me fizeram torcer, não só pelos personagens de forma separada, mas também pelo casal - Percy e Annabeth da série Percy Jackson e os Olimpianos é o melhor exemplo dessa situação. Poderia citar também Clare e Chris de Shada, Éowyn e Faramir em O Senhor dos Anéis, Katniss e Petra em Jogos Vorazes, dentre outros. 

Claro que a fantasia também é um gênero que passa por uma época que fica saturada - vulgo os romances vampirescos que surgiram depois de Crepúsculo - sub-gênero que a galera adora atacar, muitas vezes por modismo do que por ter uma opinião bem embasada. 

As histórias de amor e os clichês que as acompanham são universais. Sempre vai existir porque é de origem humana e o ser humano não é original boa parte do tempo. As rotinas do dia a dia e as situações que passamos no nosso cotidiano, por mais estranhas e incomuns que possam parecer, com certeza já aconteceu com outra pessoa em algum momento do tempo e da história - a não ser histórias de assombrações e de bêbado, que sempre são uma mais bizarra do que a outra haha. 

Somos únicos, ao mesmo tempo que não somos. Esse é o paradoxo da vida e como a vida imita a arte, a literatura, o cinema, a TV e o teatro sempre vão contar e recontar como o príncipe salvou a princesa do dragão cuspidor de fogo, como o mocinho acabou se apaixonando pela colega de trabalho durante uma investigação criminal, ou como a mocinha que sobrevive numa resistência totalitária se apaixonou pelo melhor amigo. 

Se a literatura e arte em si não refletirem o que há de mais humano e inerente em nós, como ela vai sobreviver? De quê? A originalidade é somente a forma como ela vem embalada, mas a essência é a mesma, repetida tantas vezes. Saindo do âmbito fantástico, quantos Romeus e Julietas já não morreram em todos esses séculos? Quantos Hamlets não precisaram tramar o assassinato do tio usurpador? Ainda sim, nunca nos cansamos desses arquétipos, por mais que para parecer mais cult dizemos o contrário. 

Ps: Antes que me acusem dizendo que Shakespeare não escreveu fantasia, leiam Sonho de uma Noite de Verão ;)





Já falei dos finais decepcionantes de alguns livros que já li, mas agora é hora de falar daqueles livros que têm os finais mais imprevisíveis e chocantes - aquele final que definitivamente eu não esperava. Foi difícil escolher somente cinco de tantos livros que me pegaram desprevinida. Mas aí vão eles:

Pode ter spoilers, leia por sua conta e risco!



5

Capitães da Areia 

Jorge Amado


Uma das obras mais famosas do baiano Jorge Amado, Capitães da Areia gruda na imaginação do leitor. O livro conta a história da vida difícil e quase animalesca de um grupo de meninos de rua na cidade de Salvador na década de 30, liderados por Pedro Bala. A história ganha um novo rumo com a chegada de Dora, e muitos dos meninos acabam mudando de vida pela boa influência da garota, menos Pedro Bala que a amou muito mais do que todos os outros garotos e movido pelo passado sua família, acaba virando um militante proletário.

O destino de todos os meninos, em especial Pedro Bala e o Professor, foram um das coisas que mais me surpreendeu em Capitães da Areia. Desde o começo o autor dá a entender de que a vida daqueles garotos não contém nenhum destino certo, apesar de todas as suas aspirações. Contudo, a morte de Dora já quase no fim história, é de fato o divisor de águas da narrativa e a retratação da morte da garota através dos olhos daqueles meninos brutos e sem esperança é muito comovente e considero o melhor de todo o livro.




4

O Estrangeiro

Albert Camus


Vencedor do Prêmio Nobel de 1957 e um escritor muito polêmico até hoje na França, Albert Camus foi um autor que tive pouco contato, se restringindo apenas na faculdade com o livro L'Étranger (O Estrangeiro). O livro conta a história de Mersault que comete um assassinato e precisa ser julgado, na até então colônia francesa Argélia. Antes do crime em si, Mersault comparece no funeral da mãe no qual não consegue expressar nenhum pesar. Sendo assim, o julgamento se concentra muito mais no fato do personagem não saber expressar emoção do que no assassinato. 

No fim, ele é condenado à morte, mas o que mais choca em O Estrangeiro é a indiferença do personagem às emoções humanas, o absurdo que o levou a cometer um terrível assassinato e alegria do mesmo em ser motivo de ódio para a sociedade. Na minha humildade opinião, o cara não passava de um psicopata bem doente e por isso, o quarto lugar!

3

O Médico e o Monstro

Robert Louis-Stevenson


Robert Louis-Stevenson não é somente famoso por A Ilha do Tesouro. Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde de 1886 foi um marco para a literatura gótica e para o terror. Conta a história do advogado Gabriel Utterson que após ouvir um relato de seu parente sobre um homem estranho chamado Mr. Hyde, se preocupa pois seu cliente, o Dr. Jekyll, fez o assustador Mr. Hyde beneficiário de seu testamento. 

Acontecimentos estranhos passam a ocorrer envolvendo tanto o misterioso homem quanto o Dr. Jekyll, até que em uma noite, após o chamado do mordomo, Utterson invade o laboratório do médico e a verdade vem à tona: Dr. Jekyll e Mr. Hyde são a mesma pessoa! A causa da transformação diabólica do médico uma poção que não faz mais efeito, feita no intuito de controlar os impulsos sombrios de Dr. Jekyll, mas que deu muito errado e ele sabe que da próxima vez que virar Mr. Hyde, não terá mais volta. 

O relato feito pelo personagem Utterson e o meu horror quando descobri a verdade é uma sensação que talvez eu jamais tenha com outro livro. Foi um romance que li já faz muitos anos sem nunca ter ouvido falar da fama do mesmo, sendo assim a minha surpresa com o enredo foi enorme - e assustadora. Terceiro lugar!


2

O Retrato de Dorian Grey

Oscar Wilde


Continuando nos clássicos lidos na adolescência, The Picture of Dorian Grey também segue uma linha gótica do romance anterior tendo a publicação final em 1891. A história  se passa na era vitoriana e retrata a vida errônea e degradante de Dorian Grey, um belo rapaz que não envelhence após ser corrompido moralmente por Lord Henry, levando o jovem a dar cabo anos mais tarde da vida do pintor de seu próprio retrato, Basil Haward. 

Sem conseguir lidar com a própria consciência de seus delitos, vida de luxúria e pecados ao olhar para o próprio retrato cada vez mais assustador, dezoito anos depois o mesmo retrato horripilante de si mesmo atormenta Dorian, culminando na confissão de seus atos diante da obra e o horroroso suicídio do personagem, que no fim, morre feio, velho e decrépito, enquanto que o quadro volta à sua beleza original. 

Sem dúvidas, a forma como Dorian morre no fm é de cair o queixo para quem nunca ouviu a falar da história, sem mencionar que o quadro é quase um vilão no livro assim como o protagonista, mas que no fim, não passa apenas de uma vítima da corrupção de Dorian. Segundo lugar!


E o primeiro lugar vai para....







1

A Menina que Roubava Livros

Markus Zusak


Publicado em 2005, na minha humilde opinião da pessoa que vos escreve, The Book Thief foi um dos melhores livros da década de 2010 disparado. A narração feita pela personagem Morte já chama a atenção logo de cara, e durante a leitura você não sabe onde a história vai parar, até o autor te dar um belo de um tapa na cara já no clímax!

O livro conta a história de Liesel Meminger que encontra a Morte três vezes na Alemanha da Segunda Guerra Mundial. Durante uma viagem, ela rouba o livro O Manual do Coveiro após o enterro do seu irmão no caminho para a cidade de Milching, onde sua mãe a deixa aos cuidados do casal Hans e Rosa Hubermann. Entre roubos de livros e amizade com o menino Rudy e o judeu Max que se esconde na casa dos Hubermann, a guerra passa quase que despercebida assim como a Morte, até culminar no bombardeio que vai destruir toda a rua onde Liesel mora, sendo ela a única sobrevivente do ataque.

Acho que eu nunca chorei tanto na minha vida como aconteceu com esse livro - já nos capítulos da captura de Max pelos soldados nazistas eu já estava em prantos, com esse final então derramei um balde rs! Eu não tinha ideia de como a história iria terminar e eu não vi a tragédia chegando - Zusak foi mestre em esconder as pistas para realmente chocar os leitores. É um livro que eu pretendo reler no futuro com toda certeza. Merecido primeiro lugar!

Na nossa era pós duas grandes guerras e aparentemente um "período de paz" - se descontarmos ameaças de guerras aqui no Ocidente e as que já ocorrem no Oriente desde os anos 70 mais ou menos - é visível que o nosso estilo de vida é aconchegante se comparado com outras gerações. O aconchego gera o comodismo que leva a uma letargia e indiferença aos males do mundo.

Sendo assim, filmes como Até o Último Homem (2016) ambientados na Segunda Guerra Mundial durante a sangrenta batalha de Okinawa é um remédio para a nossa letargia moderna, assim como outros filmes do gênero como por exemplo Sniper Americano (2014). O longa conta a história, baseado em fatos reais, de Desmond Doss (Andrew Garfield) o filho mais novo de uma família com dois irmãos que resolve se alistar no Exército Americano durante a Campanha do Pacífico. Porém com uma particularidade que acarretará em muitos problemas para ele no futuro: ele não deseja utilizar armas.


Aos poucos durante o filme se apresenta as razões principais de Doss, sendo uma delas - razões religiosas e de consciência - que mais escandaliza os outros personagens e acredito que até mesmo alguns telespectadores. É difícil para o homem moderno e pós moderno aceitar que ainda existam pessoas que não abrem mão de suas fé mesmo nas situações mais extremas da vida. Enquanto que tudo está muito relativo e as pessoas mudam mais de convicções como que mudam de roupa, ter valores morais fincados na rocha é motivo de piada - e Doss sofre isto na pele, literalmente. 

O romance entre Doss e Dorothy Schutte (Teresa Palmer) alivia um pouco a tensão do filme virando um contraste grande com o sofrimento do personagem com na guerra e com a própria família, em especial seu pai um veterano da Primeira Guerra, Tom Doss (Hugo Weaving). No fim de contas, tanto Dorothy quanto Tom se unem em apoiar Doss no Exército.



Assim finaliza a primeira parte do filme, enquanto que a segunda nós vemos os horrores da guerra em si. A batalha de Okinawa também é retratada de forma magistral na minissérie The Pacific e ambos se concentraram em mostrar a crueldade do conflito, mas de forma diferente pelos seus formatos. O sentimento de derrota no exército americano antes de fato conquistar o monte Hacksaw Ridge é apaziguado pelo heroísmo de Doss, provando a máxima de que aquele que às vezes parece ser o mais fraco, pode ser o mais forte e valente de todos. 

Particularmente eu fiquei contente pelos ângulos de câmera terem sido bem administrados para se conseguir entender o que ocorria, sendo a pedra no sapato de diretores em filmes de guerra, mas percebe-se a experiência de Gibson na função. 

Não ter medo de sacrificar a própria vida em prol do outro parece ser um conceito ultrapassado, mas nunca antes se fez necessário como hoje. Até o Último Homem é um lembrete que sem a piedade nossa de cada dia, o mundo só tenderá a ficar muito pior do que já está. 

O filme no último domingo faturou duas estatuetas do Oscar em Mixagem de Som e Edição. 



Título: Hacksaw Ridge
Ano: 2016
Direção: Mel Gibson
Roteiro: Robert Schenkka e Andrew Knight
Gênero: Drama, Guerra
País: Austrália e EUA