Um Conto de Natal e a Parabóla da Redenção Humana

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Nessa época do ano, às portas do Natal, sempre é bom visitar ou revisitar histórias de temas natalinos, e este ano aproveitei para finalmente conhecer uma das obras mais famosas de Charles Dickens, Um Conto de Natal (A Christmas Carol, 1843).

A premissa é bem conhecida por muitos devido as diversas adaptações da obra de Dickens para o cinema e a TV - como por exemplo, na sexta temporada de Doctor Who a história ganhou uma releitura no especial de Natal da série de 2010 de forma bem original. Contudo, nada supera a saga de Ebenezer Scrooge e seu longo caminho de redenção em uma noite natalina no livro.

Redenção é um tema muito explorado na literatura, seja de forma indireta ou direta. Personagens, sejam os mocinhos e às vezes os vilões, encontram a redenção de seus erros após uma longa batalha contra o mal. Porém, a batalha de Scrooge é contra si mesmo - o seu maior inimigo.

Homem avarento, egoísta, preocupado apenas com dinheiro e mesquinharia, Scrooge tem uma vida sem brilho, sem alegria. Uma vida vazia regrada ao sofrimento do passado que o personagem não consegue superar, acarretando na falta de amor ao próximo para com o próprio empregado Bob Cratchit, o único sobrinho e outras pessoas que passam em sua vida. 

Em uma noite, recebe a visita do fantasma de Jacob Marley, seu falecido sócio, avisando-o sobre os males de Scrooge e das consequências que sofreria caso não mudasse de vida. Horas depois, os fantasmas do Natal Passado, Presente e Futuro tal como os anjos do céu, trazem a mensagem reveladora ao personagem: sem amor que é a caridade, você está condenado ao sofrimento eterno.


É impressionante como a história de Dickens usa muito bem os elementos do Cristianismo de forma sutil e inteligente. Ao começar por várias passagens e diálogos do sobrinho de Scrooge que recobre o verdadeiro sentido do Natal: o nascimento de Cristo. O sobrinho não entende o desprezo do tio pela data, ao passo que ele em uma passagem célebre diz que a comemoração é a união das pessoas, o carinho e respeito mútuo esquecido na maior parte do ano, mas que nos recordamos todos anos com a vinda do Salvador da Humanidade.

Por mais que tentamos alcançar a santidade divina, não há como negar a natureza falha do ser humano. Quando perdemos a esperança e suplantamos a misericórdia e compaixão, caimos no niilismo de Nietzche. Enxergamos apenas o abismo, o inferno propriamente dito. Diante de tantas catastrófes, tragédias e guerras no mundo atual, perder a esperança e ficar indiferente a tudo, vivendo como um verdadeiro vegetal, é mais fácil do que o clique de um mouse.

Scrooge, após encontrar os três Fantasmas, cai em si mesmo e sem perder tempo, tenta reparar os danos que seu egoísmo causou a todos à sua volta. Egoísmo que também é muito fácil cair nos dias de hoje. Lembro que nas últimas semanas, eu passei muita raiva com os meus vizinhos por coisas triviais do dia a dia - o poste de luz que ele mexeu, caindo a energia na minha casa, o barulho da maquita de manhã cedo em um sábado acordando todo mundo, as crianças muito barulhentas à noite no qual eu poderia ouvir a bagunça do meu próprio quarto, dentre outras coisas que testaram a minha paciência.

Contudo é aí que entra a misericórdia e o processo de redenção. Se não somos capazes de amar na dor e na raiva, se não somos capazes do sacrifício que isso acarreta, não somos dignos do amor. Nunca o seremos, mas se quisermos ter a nossa alma poupada nos Dias Finais, o amor é o único caminho. 

Um Conto de Natal nos mostra que nunca é tarde para voltar atrás, para repensar a vida, dar uma nova página e cor à ela, e que a verdadeira família, como nos mostra a família de Bob, ainda é o alicerce necessário para aprender a virtude do amor. E que o futuro pode ser mudado. 

Feliz Natal!



Juliana Lira
23 de Dezembro de 2016

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