Jane Eyre e o Caminho da Dor

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Mia Wasikowska como Jane Eyre (2011)
Contém spoilers

Primeiro post de 2017! Diria que o texto seria uma resenha tardia, porém o termo não se encaixa muito bem - digo que é uma reflexão sobre uma das personagens mais encantadoras da literatura britânica.

Até hoje nenhuma personagem me comoveu como em Jane Eyre - An Autobiography, romance de Charlotte Brontë publicado em 1847 que eu li em 2012. A premissa é bem conhecida, não tanto porém como O Morro dos Ventos Uivantes da irmã mais nova de Charlotte, Emily Brontë publicado no mesmo ano. No entanto, o meu apreço especial ao primeiro se deve à sua personagem principal, que ao contrário de Emily e seus personagens ambíguos, Jane Eyre é um retrato muito mais fiel de qualquer mulher, de qualquer época.

Muito se tem falado da questão "personagens femininas mais fortes" seja lá o que isso realmente signifique para essas pessoas, pois a força não é algo que se pode ser medida apenas por diálogos desafiando os homens, ou batendo em bandidos ou gritando "eu sou uma mulher independente" aos quatro ventos, apenas para todo mundo ouvir e dar de ombros - o que acontece, devo dizer. Nunca foi novidade e não vai ser agora que será esse arquétipo de personagens femininas. 

Nem precisa ir muito longe, na própria história da humanidade sempre existiram moças mais brigonas, vulgo Isabel de Castela, porém suas brigas eram por ideais maiores do que ela mesmas e pelo bem comum de seu povo. Na modernidade, não é bem o que acontece e parece que roteiristas e escritores usam desse arquétipo como trampolim ideológico apenas para agradar a turma do politicamente correto e feministas do Tumblr. No fim, personagens que tinham potencial, apenas viram marionetes perdendo cada vez mais a própria humanidade e feminilidade. Um exemplo seria a Jessica Jones da série de mesmo nome da Netflix.

Mas Jane Eyre, por mais que tenha sido escrito um pouco antes disso tudo, vai na contramão de qualquer outra personagem da cultura pop de hoje. Quando mencionei que ela é um retrato fiel de qualquer mulher de qualquer época me referi em particular ao fato da jovem órfão ser uma mulher muito comum e ordinária.

Tobby Stevens e Ruth Wilson como Jane e Edward (BBC 2006)

A srta. Eyre como muitos sabem, veio de uma família pobre cujo os pais faleceram, ocasionando que a sua criação ficou ao encargo dos tios muito cruéis para com ela, incluindo os próprios primos que a tratavam muito mal durante todos os anos que permaneceu debaixo do teto deles. Quando foi para a escola, também era sozinha, exceto pela única amiga Helen. 

É interessante a amizade de Jane e Helen porque mostra a diferença enorme de personalidade das duas: Helen é paciente, muito madura para sua idade e não tem medo do sofrimento que passa pela doença que a leva à óbito, ao passo que Jane nessa fase, não compreende os sofrimentos humanos e vê sempre as injustiças, nunca os lados positivos.

A morte prematura de Helen deixa marcas em Jane que vai levar para o resto da vida e sem ela perceber, a fase de rebeldia se esvazia. É como se ela se tornasse a própria personificação da amiga falecida ao longo da história, a partir do momento que ela deseja ser tão serena e boa como Helen foi. 

Quando ganha o posto de governanta na casa do misterioso Sr. Rochester em Thornifield Hall e se vê ao longo do tempo atraída pelo patrão, Jane sente ser posta à prova pelo amor que sabe ser impossível. De fato era, ao descobrir o triste segredo do homem. Antes disso, a partir do capítulo que ambos confessam o sentimento um pelo outro, é visível o tamanho do poder que Jane exerce sobre ele. 

Mesmo com Edward Rochester correspondendo aos sentimentos de Jane, tão fortes quanto o dela, ao descobrir no dia do casamento que ele tinha uma esposa louca quem não podia se divorciar pelas leis da época, é neste momento da história que vemos o quão realmente forte Jane Eyre foi.

"Sou dominado e conquistado, um domínio mais doce do que posso expressar. E a conquista que me submeto agora tem uma magia que está além de qualquer triunfo meu".

- Mr. Rochester

BRONTË Charlotte, Jane Eyre. São Paulo: Landmark, 2010. Cap. 24, p. 190

O forte nesse caso não é físico, não é por ela questionar qualquer coisa que seja ou ser desnecessariamente petulante para se sobressair diante do sexo oposto. Não. A força de Jane Eyre é uma força de caráter e espírito, algo esquecido quase que por completo nos dias de hoje. Ela poderia ter se casado com o Sr. Rochester mesmo sabendo da verdade terrível; ela que sempre foi pobre poderia ter tudo do bom e do melhor e teria uma vida confortável e feliz ao lado do homem que amava.

Contudo, a moça escolhe o caminho mais difícil: a dor da separação. Não acredito que toda mulher teria a coragem de fazer o que Jane fez. Sem dinheiro, sem trabalho, sem ter para onde ir, ela quase morre literalmente à beira da estrada, movida somente pela sua consciência e coração que sabiam que o relacionamento era errado perante o Criador, como a própria diz. Para não ofendê-Lo, para não ter a própria consciência lhe acusando, Jane escolhe passar por muitos sofrimentos até conseguir se estabelecer como professora num pequeno vilarejo.

Mais uma vez ela é posta à prova quando o primo que a ajudou a pede em casamento. Sabendo que jamais esqueceria o Sr. Rochester e que nunca poderia fazer o primo feliz, com tristeza, mas convicção, ela recusa a proposta de St. John, sabendo que as motivações dele não eram amor, apenas praticidade. 

"'Meu espírito, respondi lentamente', 'é dócil para fazer o que é certo. E minha carne, creio, é forte o bastante para cumprir a vontade do Céu, quando esta vontade se manifesta claramente. De qualquer forma, deve ser forte o bastante para procurar indagar, buscar uma saída nesta nuvem de dúvidas e achar, por fim, o céu claro da certeza'".
- Jane Eyre

BRONTË Charlotte, Jane Eyre. São Paulo: Landmark, 2010. Cap. 36, p.305

A força de Jane é a sua moral convicta, cravada numa rocha em seu pequeno coração que a guiava até esses momentos decisivos. Tempo depois, após descobrir que era herdeira de um parente sem filhos muito rico, ela parte para procurar o Sr. Rochester para saber o que aconteceu com ele e mais uma vez, a vida se mostra uma surpresa de acontecimentos.

Um incêndio acidental causado pela agora falecida Sra. Rochester destruiu Thornfield Hall. Na tentativa de salvar a esposa, o Sr. Rochester acaba por se ferir e termina cego e coxo. Um homem que antes tinha uma presença tão imponente e forte, saudável e que não gostava de depender de ninguém, se vê preso ao próprio corpo e totalmente dependente de uma empregada para tudo. Imagine o choque tanto meu como leitora, como da própria Jane ao encontrar o Sr. Rochester daquela forma no fim do livro.

Jane sempre dizia que se permitira amar um homem apenas se fosse igual a ele. Mas é aqui que muitos acham que ela estava falando de dinheiro ou status social. Não, não era somente de dinheiro ou status que ela dizia e como bem mostra nesses últimos capítulos. A igualdade no qual ela se refere é a igualdade de espírito, da alma. 

Ela poderia ter deixado o Sr. Rochester da forma que o encontrou e ter se casado com um outro homem saudável e do mesmo status dela se quisesse. Mas não. Não é isso que ela fez, muito pelo contrário, e o Sr. Rochester nesse estágio da história ainda está longe de atingir o patamar espiritual no qual Jane se encontrava. Ainda assim, ela se permite se contradizer, ou mudar de ideia e ficar com ele. 

Após a tragédia, o Sr. Rochester reconhece as decisões errôneas que tomou, em especial em relação à própria Jane e os dois se perdoam pelo passado. A moça de bom grado não sente repulsa pelo estado de saúde dele - tanto que esse um dos diálogos mais amáveis do casal sobre a possibilidade de Jane deixá-lo e o medo que isso em causava em Edward. Ele não a obriga a fazer nada em nenhum momento do livro, quanto mais agora no final que ele deixa claro que ela pode partir quando quiser. O Sr. Rochester é um personagem tão interessante e profundo quanto a própria Jane, sendo o exemplo de ser humano que não sabe lidar com o sofrimento e se deixou levar por más influências na juventude.

Michael Fassbender e Mia Wasikowska - Jane Eyre (2011)

Porém o amor de Jane por ele, a compaixão em querer cuidar dele naquela condição difícil e saber que ambos poderiam serem felizes mesmo assim, é o trunfo para o final feliz da história. Sr. Rochester na sua redescoberta humildade diz à ela que não gostava de ser dependente da empregada para qualquer coisa que precisasse fazer, mas seria muito feliz em ser dependente dela em sua atual condição de cego, tarefa que Jane não pensa duas vezes em assumir.

Os dois não são iguais da forma como a modernidade define do começo ao fim do livro, mesmo que nas últimas páginas o Sr. Rochester acaba recuperando parte da visão com o decorrer do tempo. O amor alimenta a união de dependência de Jane e Edward e é isto que muitos casais de hoje não compreendem. Digo mais, é isso que nossa sociedade moderna não compreende e critica da forma mais injusta e insensível. 

Amar é deixar o ego morrer para que o outro seja feliz, é se deixar depender do outro em todos os campos da vida. É entregar-se por completo sem egoísmo e reservas, com paciência e mansidão como diria São Paulo na carta aos Coríntios. É assustador e não é todo mundo que está maduro o suficiente para tal entrega e sacrifício.

Jane Eyre é um exemplo de força de caráter e espírito que não se deixa dominar por impulsos e emoções violentas para tomar decisões muitas vezes difíceis, que trariam um fardo muito grande para si mesma. Em um mundo cada vez mais individualista no qual se reflete na ficção, personagens como Jane Eyre merecem muito mais crédito do que lhe é dado, pois ela é essencialmente humana, ao mesmo tempo uma heroína ao passar pelo sofrimento sem perder sua essência e sem sacrificar sua feminilidade no altar do hedonismo para isso. 

Link útil: Sabe mais quem sofre por Tiago Amorim.

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