Os Heróis de Jane Austen e a Verdadeira Masculinidade

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Contém spoilers

Sendo mulher, é óbvio que muitos dos problemas masculinos atuais eu realmente não compreenda totalmente, mesmo buscando formação, principalmente de pessoas que entendam do assunto, ou seja, homens que lutam por uma masculinidade santa, incluindo também os sacerdotes, além de toda a doutrina católica sobre o assunto. Meu foco em si é estudar e viver a feminilidade, mas como ambos — masculinidade e feminilidade — são polos complementares, creio que seja muito importante nós moças compreendermos o sexo oposto e vice versa.

Sendo assim, este texto não tem nenhuma intenção de ensinar nenhum homem a ser homem, o que seria ridículo. No entanto, com o pouco que sei sobre o assunto e por conhecer a obra de Austen por muitos anos, creio que seja válido os pontos citados a respeito das diversas facetas dos seus personagens masculinos — afinal de contas a ficção boa parte das vezes, nas mãos de um escritor talentoso, representa a realidade tal como ela é.

Sou leitora de romances desde que me entendo por gente. Cresci lendo romances com histórias de amor, alguns bons, outros nem tanto, alguns inesquecíveis, outras sofríveis. Mas nenhum autor(a) me fascinou tanto sobre a questão do relacionamento entre homens e mulheres como Jane Austen.

Jane Austen (1785 -1817) nasceu em Hampshire na Inglaterra e escreveu seis romances que marcaram a literatura britânica do período regencial até os dias atuais, além de outros trabalhos póstumos, mas que não são o foco desse texto. O livro mais famoso da autora é Orgulho e Preconceito (1813) já bem citado por aqui.

Meu primeiro contato com a obra de Austen foi aos quinze anos com o romance acima citado, seguido de Razão e Sensibilidade (1811) Mansfield Park (1814) Emma (1815) A Abadia de Northanger (1817) e o meu segundo favorito da escritora, Persuasão (1817) os dois últimos publicados logo após sua morte. Os romances em geral retratam a vida da Inglaterra rural do final do século 18, com toques de ironia e sarcasmo que chega a ser bem engraçado em várias passagens, além das questões do casamento, dinheiro e a moral da época.

Não é surpresa que a maioria do público de Austen é esmagadoramente feminino, pelos romances sempre terem um casal central que passa por diversas peripécias e mal entendidos até finalmente se casarem no final do livro — o que sejamos francos, é muito gostoso de ler e torcer por eles. Contudo os heróis masculinos de Austen, longe de serem homens perfeitos, têm muito a ensinar a qualquer rapaz de boa índole que busca uma masculinidade santa e à imagem do Criador.

Não precisa ir muito longe em perceber que a verdadeira masculinidade está em crise e sendo atacada pela modernidade, assim como a feminilidade. Hoje temos dois extremos: os maricas que não assumem seu papel de homem e os machões que acha que comer carne e “pegar todas” é o ápice de todo homem. Nada mais falso e deturpado.

São João Paulo II em sua Teologia do Corpo nos ensina que uma das virtudes masculinas é o sacrifício e a força (seja física e emocional) para servir ao próximo, em especial a mulher. Além disso, o homem também possui o dom de iniciar o amor, quando por exemplo, cria coragem o suficiente para o cortejo, sem mencionar o início para a vida e a paternidade. É de fato uma missão belíssima do homem dada por Deus, mas infelizmente com o nosso mundo caído, tudo ficou distorcido.

É possível, no entanto, redescobrir essas virtudes na literatura com os heróis de Jane Austen, esses sendo jovens rapazes que quando se encontram na cruzilhada do amor, tomam decisões às vezes certas, às vezes erradas, mas de uma forma ou de outra, descobrem a si mesmos e as virtudes e como devem amar uma mulher.

Eu poderia falar de Mr. Darcy de Orgulho e Preconceito que é o personagem mais famoso, porém eu já escrevi um pequeno ensaio sobre ele no blog. Temos o exemplo de perseverança e paciência nele e no Coronel Brandon de Razão e Sensibilidade com seu amor não correspondido por Marianne Dashwood. No mesmo romance, vemos a coragem e o crescimento de Edward Ferrars que deixa de ser um garoto influenciado pela mãe e cresce como homem ao propor casamento para Elinor, mesmo perdendo toda a herança que lhe é de direito por contrariar a mãe, assim como Henry Tilney em Abadia de Northanger com a diferença deste último ser menos dramático e mais uma comédia. Em Orgulho e Preconceito também vemos a falta de confiança de Mr. Bingley em si mesmo, mas também vemos sua benevolência e bom coração ao perdoar Mr. Darcy.

Em Emma, vemos a maturidade e bons princípios de Mr. Knightley que com carinho, mostra para a personagem principal de mesmo nome seus erros e equívocos, e com muita dor vê a amada dar atenção a outro menos digno dela, assim como o Coronel Brandon. Em Persuasão é nítido como o capitão Frederick Wentworth perdoou sua amada Anne Elliot por suas decisões mesquinhas no passado, o suficiente para depois de anos separados, pedir a mão dela em casamento de novo. Em Mansfield Park vemos Edmund Betram que sempre foi um ótimo rapaz se deixar influenciar negativamente em seus princípios e acaba magoando a protagonista Fanny Price, até que finalmente ele se dá conta dos seus erros, assume sua vocação de clérigo e casa com Fanny contra a expectativa de todos (a Igreja Anglicana é muito presente nas obras de Austen).

Anne Elliot e Capitão Wentoworth em Persuasão - BBC 2007
A autora nos mostra, assim como em suas personagens femininas, diversas facetas de personagens masculinos — facetas virtuosas e errôneas — que existem no mundo real. Eu poderia falar também da má índole masculina de George Wickham, Frank Churchill, Henry Crawford e John Willoughby; a soberba e falta de princípios de Philip Elton e William Collins, exemplos de como não ser um homem, mas o texto ficaria desnecessariamente grande.

Contudo, sempre no final do livro, os co-protagonistas, diferentes dos citados acima, não são os mesmos e eles possuem em comum apenas uma virtude: a coragem. A coragem de ser rejeitado pela amada, a coragem de enfrentar medos, a coragem para crescer como homem e a coragem para sofrer por amor e engolir o orgulho e a vaidade.

Imagino que a razão da autora saber retratar tão bem a masculinidade em vários aspectos em seus romances, é pelo fato dela ter tido e convivido com seis irmãos, cada um com particularidades únicas que devem tê-la inspirado e muito ao criar seus próprios personagens - assim como o seu relacionamento próximo com sua única irmã, Cassandra inspirou o relacionamento de Elizabeth e Jane em Orgulho e Preconceito.

Por isso que ainda hoje eles são personagens amados da literatura. Mas infelizmente devido ao nosso mundo secularizado, não mais se acredita no amor cortês e puro entre homens e mulheres, são muitas vezes vistos com desprezo e até chamados de irreais, como já li em vários outros textos.

Não meus queridos, os homens de Jane Austen não são irreais. Muito pelo contrário, são tão humanos e comuns que todos eles passam por uma longa jornada de descoberta para finalmente estarem aptos a amar sem reservas as protagonistas dos livros e cultivarem as virtudes típicas de seu sexo. As histórias austenianas merecem sim serem observadas por rapazes de boa fé que desejam se tornarem bons homens com uma masculinidade santa. Em especial, os romances da autora ensina a perseverarem em relação às nós mulheres e também, não se deixarem abater diante das situações inconstantes da vida.

Uma mulher de verdade, que desabrochou na feminilidade dada por Deus, não quer ouro e prata, mas sim uma rocha que a apoie no furacão de emoções; que a descubra e a encontre como as pérolas no fundo do mar; que seja um soldado de Cristo para o que der e vier junto dela rumo ao Céu.

A literatura, principalmente da era vitoriana, possui bons exemplos de masculinidade. Futuramente, quem sabe, pretendo falar também dos heróis e heroínas de dois outros grandes autores desse período, Elizabeth Gaskell e Charles Dickens. Acredito que valha pena procurar boas referências na ficção, além Daquele que é referência de homem, Cristo Jesus.

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