As Memórias Perdidas de Jane Austen e uma Nota sobre o Amor

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“Não temo mais a revelação de meus fracassos ou os de outrem. Passei a acreditar, no final, que não há vergonha na verdade, apenas liberdade; e que, com o tempo, toda história tem o direito de ser contada”.

Talvez esse seja o texto mais difícil que escreverei até hoje. Eu imagino a própria Jane se debruçando na sua escrivaninha, pena e tinta à mão, forçando a mente para relatar os fatos mais importantes de sua vida. Porém para a minha decepção, o livro é ficcional. No começo eu realmente acreditei que foi a própria Austen que escreveu este livro de memórias de tão bem elaborado e real à sua personalidade. Uma pena que boa parte é invenção de Syrie James, mas isso não tira o seu mérito. 

Jane Austen foi uma das grandes autoras que exerceu uma influência enorme na minha vida desde o dia que terminei de ler Razão e Sensibilidade em meados de 2009. Não somente as personagens carismáticas de seus seis romances me conquistaram, mas também seu bom humor polido e sarcasmo educado me fascinaram, a tal ponto que o meu próprio estilo de escrever bebe muito da fonte da autora inglesa, se estendendo até ao meu humor um pouco ácido.

Em suas "memórias" vemos uma Jane menos irônica e mais contemplativa e madura, que olha para o passado, não com amargura por todas as derrotas que sofreu, em especial a perda do grande amor da sua vida por circunstâncias fora do alcance dela, mas com sobriedade. De fato, a autora tinha uma convicção muito firme sobre relacionamentos fundados no amor mútuo, não no interesse financeiro como era o costume de sua época e como se pode observar em seus romances. 

Não concordo com a afirmação de que Austen era uma mulher “à frente de seu tempo”, pois isso não quer dizer absolutamente nada pelos simples fato dela desejar amar, algo que sempre foi a busca de qualquer pessoa de qualquer época com um bom coração e mente. 

Ainda existe o amor por interesse, não somente por dinheiro, mas por carência, por conveniência, para suprir alguma pressão seja de amigos ou família, por medo da solidão ou para satisfazer o próprio ego. Devo dizer que nessa questão tenho uma gota de desilusão pelas decepções da vida que passei e presenciei de outras pessoas e nosso século está muito pior do que o século de Austen no campo amoroso.

A verdade, no entanto, é que o amor exige muito sacrifício e conhecimento profundo de si mesmo, às vezes um altruísmo heroico pensando no bem da pessoa amada, não no próprio. Esse pequeno livro de memórias da autora me mostrou não somente ela como a escritora, mas como uma mulher de carne e osso, viva em suas palavras sinceras de carinho por sua família, em especial a irmã mais velha Cassandra e claro, seu misterioso amante, trabalho podemos dizer impecável de Siryie James de incorporar a icônica escritora.

É visível também a solidão de Austen ser ela mesma até o fim de sua vida e não trair a si mesma apenas por capricho e conforto. A experiência profunda do único amor de sua vida culmina no seu romance mais maduro e poético, Persuasão com a diferença do final feliz da heroína depois de muito sofrimento, o que não aconteceu com sua criadora.

Beleza e educação nem sempre é sinônimo de virtude, mas podem ser grandes aliados na conquista de um grande amor. A autora narra como esses atrativos foram fundamentais para que ela pudesse de fato se interessar pelo misterioso Sr. Ashford - o que foi um nome inventado por ela para proteger a verdadeira identidade do seu amante - mas que eram apenas a superfície da alma nobre e virtuosa do cavalheiro no qual se apaixonara.

Jane diz com toda clareza que só seria capaz de se casar caso seu cônjuge apreciasse sua personalidade e vice versa. Os atrativos iniciais se tornaram pífios se comparados com a nobreza de espírito e caráter do Sr. Ashford para com ela e com todos à sua volta. O amor desinteressado de ambos, o respeito mútuo e a maturidade do casal era um prelúdio do que poderia ter sido um casamento muito feliz.

O que é mais difícil no nosso tempo, em todos os meios sociais, é este amor desinteressado que Austen em seus romances descreve com todo fervor e sinceridade. Não somente isso, as pessoas no momento dos flertes e de conhecer alguém, ficam apenas focadas nos atrativos iniciais, principalmente a beleza (a educação nem conta tanto mais para nosso tempo como no da autora) e simplesmente param aí, achando que somente o aspecto físico irá suprir a necessidade de amar por toda a vida.

Não se dão mais o trabalho de conhecer profundamente a alma do afortunado (a), compreender sua personalidade e seu caráter como ser humano. Enfim, conhecer quem ele (a) é de fato para poder amá-lo (a). A beleza virou o único critério para o amor em nossos tempos e não é à toa que as pessoas estão cada vez mais infelizes em seus relacionamentos.

Acredito sim como a autora deste livro que Austen não virou uma “solteirona” amargurada e insuportável como vemos muitas em nossa sociedade. Muito pelo contrário, tornou-se sábia e aproveitou todo o tempo que lhe restava antes da doença debilitá-la por completo para escrever, inspirada nos acontecimentos de sua vida - algo que por muito tempo foi o motivo de tortura da autora por conta dos nãos que precisou ouvir ao procurar ser publicada.

Mesmo com duzentos anos nos separando, a escritora inglesa com seus belíssimos romances foi capaz de me devolver a perseverança sobre o amor, a retirar um pouco a casca grossa e o meu desdém por relacionamentos e a não desistir tão facilmente de encontrar uma alma no qual eu possa verdadeiramente amar de forma livre, sem interesses e retornos. 

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