[LendoShakespeare] Sonho de Uma Noite de Verão

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The Reconciliation of Titania and Oberon - Joseph Paton. Óleo sob canvas (1847)
Os amantes e loucos têm cérebros tão fervilhantes, fantasias tão imaginativas, que acabam por conceber mais do que a fria razão pode compreender.


Sonho de Uma Noite de Verão - Ato V, Cena I

Publicado em 1600 Sonho de Uma Noite de Verão (A Midsummer's Night Dream) é uma das comédias mais famosas do Bardo. Numa noite de verão quatro amantes atenienses cruzam o caminho de de Titânia a rainha das fadas e Oberon durante a preparação do casamento do duque de Atenas, Teseu e a Rainha das Amazonas, Hipólita. Para a festa de casamento que não foi somente um, trabalhadores locais preparam uma peça amadora trágica de tão ruim e engraçada, que poderia tudo ter sido um grande sonho...

Um dos elementos mais notáveis nesta peça é a influência direta da mitologia grega em todo o enredo, incluindo os elementos da fantasia, muito mais explícito do que em outras peças do autor. Enquanto que em A Tempestade ou Conto de Inverno, o elemento fantástico é mais sutil, em Sonho de Uma Noite de Verão o encantamento de duendes a mando de Oberon causa toda a confusão dos personagens. 

Há algo de curioso de Teseu desposar Hipólita, já que nos contos mitológicos, Teseu se casou com outra amazona, Antíope após uma guerra com as mesmas. A personagem Helena, a rejeitada por Demétrio que preferia sua amiga Hérmia, pode se referir a descrita Helena de Tróia. Hérmia seria a rainha das fadas e ninfas; Lisandro era um espartano que derrotou a frota ateniense durante a Guerra do Peloponeso e por fim, Demétrio (que existiu ao contrário dos outros) foi um mártir e santo militar grego ortodoxo. 

Misturar todos esses personagens - excluindo Demétrio - já conhecidos do grande público da época elizabetana em uma história inusitada, deve ter causado risos da platéia que assistiu a representação. Essa característica é crucial para passar a ideia de surrealidade da história, que para nós brasileiros, muitas da vezes ignorantes com todo esse panorama histórico e mitológico do teatro shakesperiano, deixamos passar. 

Mas Shakespeare deixa uma dúvida no ar: será mesmo que Oberon e o duende Bute foram responsáveis pelos desencontros e brigas entre Demétrio, Lisandro, Hérmia e Helena, os quatro amantes? Será mesmo que a pobre Titânia, enganada por Oberon, se apaixonou por um asno? O que poderia se chamar sonho, pode ter sido um grande pesadelo para alguns personagens!

Não é a primeira vez que Shakespeare brinca com a questão dos sentidos humanos que são falhos e limitados. Podemos ver isso em Otelo, claro de forma muito mais trágica. O mundo real em nossa volta pode não ser habitado por fadas e duendes, porém pode nos enganar nas situações diversas da vida de forma fácil demais. A facilidade de como os quatro amantes amam e desamam numa mesma noite, retrata como as paixões são efêmeras e inconstantes, às vezes até cômica como o Bardo nos mostra tão bem.

O mundo fantástico das fadas se choca com a realidade pitoresca de Atenas e de seu governante. A normalidade e o "absurdo" dos sonhos convivem lado a lado. Os personagens atravessam a fina camada da realidade para um momento que não possuem nenhum controle, que não faz o menor sentido - uma realidade do avesso e até assustadora, mas com o trunfo de transformar tudo isso em comédia.  

No último ato temos uma peça dentro de uma peça dos trabalhadores locais para o casamento triplo, que nada mais é do que uma sátira engraçadíssima de Romeu e Julieta, publicada um anos antes. Se Shakespeare nos faz chorar com suas tragédias, ele também é capaz de nos fazer rir com suas comédias e sorrir com os finais felizes do amor sólido e real, que por fim prevalece. 


- Recomendação de leitura: A Midsummer Night's Dream por G.K. Chesterton

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