[Mundo Escrito] Edição, Pseudônimos e a Arte Literária

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Fonte: Tumblr


Eu até tentei começar a edição do meu romance bobo do NaNoWrimo do ano passado mais cedo. Mas não deu. Em parte a culpa foi minha, em parte foram as circunstâncias da rotina que não permitiram eu me concentrar na história por muito tempo.

Quase um ano depois da maratona de 30 dias de escrita e 9 meses desde o dia que eu coloquei o ponto final no último capítulo, nestas últimas semanas eu peguei o texto novamente para dar continuidade na primeira edição do rascunho. Agora sinto que é sim um momento propício, pois já me desapeguei da história e mal lembro da narrativa. Ou seja, estou lendo o texto com outros olhos, outra perspectiva e acredito que até mais madura do que no começo do ano.

Este ano com os estudos e leituras que venho fazendo, a minha perspectiva em relação à escrita se expandiu. Sempre tive bons conhecimentos de escolas literárias, um pouco de teoria crítica e estilo. Porém a questão da profundidade de uma narração não era algo que eu estava ciente, era uma questão que estava arraigada no fundo da minha mente sem eu saber que estava ali.

Esse insight intelectual e literário - não sei ainda se este termo é o mais correto, mas vai ele mesmo - é um dos motivos que está me fazendo arrastar a edição da história mais do que eu esperava. A garota que escreveu aqueles diversos parágrafos há um ano não é exatamente a mesma de hoje e terei que lidar isso. Não com um distanciamento frio de quem eu era, porém com um pouco da maturidade literária e como pessoa que ganhei neste último ano.

Agora eu compreendo porque tantos escritores sofriam na hora de editar seus originais. Hemingway por exemplo, reescreveu durante a edição o final de A Farewell to Arms (1929) 39 vezes; Neil Gaiman escreve seus romances e só retornar a eles para a edição meses depois e por aí vai. Esse distanciamento entre a escrita do primeiro rascunho e a edição eu sempre gostei da ideia, e até agora, dos capítulos que já estão na primeira edição (pretendo fazer três edições minhas antes de publicar em qualquer lugar) tem sido muito gratificante.

Estou gostando muito dessa segunda etapa de redescobrir o enredo, rever as dúvidas e problemas de enredo que eu deixei sem solução com outros olhos; algumas questões agora estão fáceis de resolver, mas que durante a escrita me tiraram o sono durante dias. 

Por enquanto estou na parte "mais fácil" do ofício. Porém já pensei um pouco sobre publicação e mantenho a ideia inicial de publicar a história numa plataforma de autoplicação como o Wattpad, por exemplo. O problema é que, sendo bem sincera, nunca gostei dele. Acho o design feio e confuso, poucas opções de categorias, uma mistura de inglês com português nas recomendações que eu não acho legal, já que a intenção é ler originais da língua materna. Naveguei na plataforma procurando algum original que me chamasse atenção, porém não achei um que valesse a pena gastar o tempo.

Isso tudo me desanimou com a ferramenta e procurei outras alternativas, como por exemplo, o Sweek. Ainda não mexi nele, mas só o design mais limpo já ganhou pontos comigo. Pretendo também testar a publicação de original do Social Spirit que gosto bastante e possui um público bem amplo.

Entretanto, não quero assinar o romance com o meu nome verdadeiro. Eu não gostava da idéia de usar um pseudônimo, no entanto agora a coisa me parece bem tentadora e interessante. É divertido pensar em criar um novo nome para si mesma, o que causa um certo mistério e até mesmo um alívio e segurança de não ser reconhecida pelo nome original. Para uma pessoa muito privada como eu, que não gosta de se expor, a idéia de um pseudônimo é excelente e cai como uma luva. Se for possível, irei até mais longe e adotarei o que a escritora italiana Elena Ferrante fez: famosa, mas reclusa sem ser reconhecida no termo literal da palavra.

Apesar disso, concordo plenamente com ela que a imagem do autor não deve afetar a obra literária. Hoje em dia a imagem pública dos escritores famosos anda muito badalada na mídia, seja de forma positiva, seja de forma negativa o que não deveria afetar a obra de arte literária em si mesma. As pessoas, no entanto, são incapazes de separar alhos dos bugalhos e os próprios escritores estão caindo na armadilha de transformarem suas obras, que deveriam ser arte, em panfletos de propagandas de qualquer bandeira que defendam. 

O que é a arte? A arte sempre deve retratar alguma coisa condizente com a realidade, por mais fantasiosa e absurda que seja. Ela possui uma forma em si mesma e um conteúdo desta forma, mas que jamais deve se sobrepor a esta forma acabada e fechada que é um quadro, uma escultura ou uma coletânea de poesias. A arte deve estar sempre disposta a ser interpretada de diversas maneiras diferentes, ao ambíguio e às vezes o subjetivo do sujeito que a contempla. Quantas interpretações podemos tirar da Monalisa de Da Vinci? Quantas conclusões diversas podemos chegar lendo uma prosa de Dostoiskévi? 

Por mais que artistas e autores possuem alguma convicção ideológica, ela jamais deve se sobrepor a obra de arte em si, pois se fecha o ramo das interpretações e deixa de ser arte para virar qualquer outra coisa, na maioria das vezes bizarra. No caso da literatura não é diferente, já que as palavras escolhidas e montadas em uma forma com um conteúdo - que pode chocar, fazer rir, fazer chorar,amedrontar - é arte por si mesma, muito mais que seu conteúdo.

Não é de se espantar que tantos escritores, alguns ainda no começo da carreira, não conseguem tocar o âmago do seu leitor, por muitas vezes não possuírem a bagagem dos clássicos e dos grandes autores (vou falar sobre isso mais para frente) e também por imporem uma idéia pessoal de forma tão óbvia que dá vergonha alheia - e acredite, já me deparei com esses e fico me perguntando se ninguém de fibra e honestidade chamou a atenção do sujeito.

Se não existe mil interpretações diferentes para um mesmo texto, se não existe as entrelinhas, se não existe a abertura para a imaginação do leitor para tal cena ou tal diálogo; se o autor tranca as portas deste imaginário, a literatura não é mais arte. Ponto. Se não fosse assim, não estaríamos ainda até hoje, mais de dois séculos depois, discutindo se Capitu (personagem de Dom Casmurro de Machado de Assis) traiu ou não o Bentinho. E essa discussão jamais terá e não se chegará a uma conclusão definitiva por lei, sendo esta a grande virtude da arte. 

Até eu ser capaz de fazer isso, continuo editando e suando no meu manuscrito bobo para ao menos deixá-lo digno de possuir uma arte literária. 

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