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O Poeta e os Lunáticos - G.K. Chesterton

by - domingo, janeiro 14, 2018


Gabriel Gale era um pintor que também era poeta. Pintor, poeta e uma espécie de detetive à lá Sherlock Holmes, porém com uma filosofia que ia na contramão da modernidade e do lugar-comum. As investigações do pintor-poeta-detetive partiam de reflexões primárias sobre uma cor na parede, uma colher sob a mesa, uma gota d'água escorrendo da janela, que eram o seu gatilho para solucionar os crimes mais absurdos que cruzavam o seu caminho, o que deixavam seus companheiros e curiosos com a pulga atrás da orelha. E o leitor também.

Assim temos em O Poeta e os Lunáticos publicado em 1929 do querido escritor G.K. Chesterton um homem incomum, até excêntrico, que usa as pequenas coisas óbvias e insignificantes da vida como suas armas para entender a natureza humana e o curso das coisas. Seria como se o Gordo (como carinhosamente os fãs do autor o chamam) tivesse pegado toda a sua rica filosofia descrita em Ortodoxia e tivesse depositado no caráter de Gale. 

Nos oito contos que compõe a coletânea, o pintor-poeta-detetive precisa lidar com os mais variados tipos de pessoas, em especial os homens práticos ingleses por quem tinha um desprezo bem disfarçado por apatia, mas que gostava mesmo assim, pois lhe eram úteis e lhe ajudava quando precisava, como o simpático Dr. Garth. É curioso que pouco se sabe sobre a biografia do protagonista, salvo algumas informações no último conto O Manicômio da Aventura. Talvez isso seja próprio do estilo literário e criativo de Chesterton.


Ilustrações belíssimas por Júlia Máximo.
Aliás, é a primeira vez que leio um texto ficcional do Gordo e confesso que não foi tão simples se acostumar com o estilo literário dele logo de cara. Chesterton é completamente diferente de um Arthur Conan Doyle ou uma Agatha Christie quando se trata de apresentar o problema, ou seja, o caso a ser resolvido. Em histórias de detetive, é comum as pistas estarem todas na narrativa e com elas, o leitor tenta desvendar o mistério ele mesmo. Já nas peripécias de Gabriel Gale, as pistas não são óbvias ou são omitidas do leitor, este que fica toda a história no escuro esperando a resolução do personagem.

Por eu ter crescido lendo as aventuras de Sherlock Holmes e por já ter lido uma obra da Christie e do Sidney Sheldon, eu já tinha um conceito pré concebido de histórias policiais, mas que Chesterton quebrou por completo. Gabriel Gale não é um homem prático e por não ser prático, ele consegue enxergar da forma mais profunda o cerne da alma de suas vilões e vítimas, numa verdadeira investigação metafísica, muito mais além deste mundo do que seus colegas são capazes de conceber, até mesmo o leitor.

Não é à toa que muitos o chamam de louco e até acham que deveriam interná-lo em um manicômio, coisa que vai persegui-lo até o último conto. É nítido o apego desses personagens a realidade moderna e cheia de ninharias e bobagens, o que seria um retrato fiel das pessoas comuns de hoje, infelizmente. 

Gênios como o nosso pintor-poeta-detetive são raríssimos de acontecer e quando eles surgem, sempre são os loucos da história e as pessoas práticas, como verdadeiros avestruzes com as cabeças enterradas na areia, são os normais. Bem, fazer o quê, né?



Os contos que para mim se destacaram pelo mistério e a brilhante resolução deles fora A Ave Amarela, A Sombra do Tubarão e O Dedo de Pedra. Essa foi sem dúvidas a melhor tradução do Gordo que já li e Raul Martins Lima está de parabéns pelo trabalho. Porém, é bom tomar cuidado com os advérbios (principalmente, eternamente, formalmente, os deste tipo). Senti que eles foram abusados em vários parágrafos. No entanto, nada que uma segunda edição e revisão não resolva. 

No mais, Gabriel Gale, o pintor-poeta-detetive convive de fato entre lunáticos das mais variadas espécies. A bondade do homem, contudo, prevalece de forma peculiar, mas sempre está lá à espreita dos seus longos solilóquios, como alguém que conhecia o mundo tal como ele é, não como ele deveria ser. 

Em meio à loucura social, é sempre bom que alguém tenha a cabeça mais voltada para cima do que para baixo, sendo louco do seu próprio jeito. Sendo pintor, poeta, detetive. Sendo filósofo. Sendo humano. 

Refiro-me ao cético de verdade, que duvida da matéria e das mentes alheias e de tudo que não seja o seu próprio ego. Eu mesmo já passei por isto, assim como passei por quase todas as formas de idiotice que há entre o Céu e a Terra. Eis a minha única serventia no mundo: ter sido todos os tipos de idiotas possíveis.
Gabriel Gale

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