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O Silmarillion - J. R. R. Tolkien

by - terça-feira, março 13, 2018


"É que das bem aventuranças e da alegria da vida há pouco a ser dito enquanto duram; assim como as obras belas e maravilhosas, enquanto perduram para que os olhos a contemplem, são registros de si mesmas; e somente quando correm perigo ou são destruídas é que se transformam em poesia"


O Silmarillion, página 110. 
    
  É impossível após terminar a leitura da trilogia de um livro só, O Senhor dos Anéis, e não ficar fascinado pela Terra Média, seus habitantes e suas histórias. Por alguma razão engraçada, adiei a leitura de O Silmarillion desde de 2016, quando finalizei a leitura da trilogia principal. Antes tarde do que nunca.

As histórias do livro antecedem a todos os acontecimentos de O Senhor dos Anéis e O Hobbit, seguindo praticamente uma estrutura parecida com o Antigo Testamento bíblico, inclusive no seu texto de abertura, o Ainulindalë que remete ao livro do Gênesis. Não é somente em estrutura narrativa que O Silmarillion lembra os textos bíblicos, mas também até mesmo nos dramas da criação do mundo e dos primeiros seres que habitam a Terra Média. Isso fica bem evidente com a traição de Melkor, um dos primeiros ainur (ou valar) poderoso criado por Eru llúvatar - que seria no caso Deus - que deseja subjugar todos os filhos de Ilúvatar ao seu poder, gerando assim a criação do mal.

Com o mal enraizado no mundo, não é de se espantar a influência de Melkor (ou Morgoth como é chamado depois de sua "queda") nos elfos e posteriormente os homens que habitam a Terra Média. A ação de poder do valar caído é quase invisível, plantando a inveja, a soberba e principalmente o desejo de poder nos corações das criaturas, que cada vez mais, em sua maioria, se afastam dos Valar - que seriam um paralelo com os arcanjos - e de Eru.

Em meio a tantas trevas que começam a dominar a Terra Média e a mente de seus habitantes, em especial após a criação das amaldiçoadas silmarils, gerações e mais gerações provam da dor e da guerra em decorrência de tais jóias, da influência maléfica de Melkor e principalmente, da própria soberba. Se houve um "pecado" dos filhos de Eru, a soberba foi sem dúvidas o pior e mais nefasto de todos.

No entanto, nem tudo é desgraças. Temos nas histórias de O Silmarillion preciosas pérolas como a história de amor entre o humano Beren - forte e muito corajoso, que me lembrou demais Faramir em alguns aspectos - e a elfa Lúthien. A força do amor verdadeiro de ambos era tão grande que comoveu até mesmo os Valar e mudou a história da Terra Média daí em diante. Com a união de ambos, que representam os dois povos mais fortes, foi um fator decisivo para a demanda das silmarils e posteriormente, em O Senhor dos Anéis. Foi sem sombra de dúvidas a minha história favorita.

Em contrapartida temos a tragédia shakesperiana-grega de Túrin Turambar, que eu diria que é a mais sangrenta e trágica de todas as histórias que compõe o livro. Maldições, maus presságios e o poder das palavras são coisas sérias na Terra Média e que quando são ignoradas, deixam um rastro de destruição e lágrimas. Mesmo com a liberdade de escolha das criaturas que perdura em todos os livros, a escolha às vezes pelo mal e o ceder a tentação é muito comum entre vários personagens, que inicialmente parecem serem bons, até serem corrompidos.


A corrupção devido a escolha do mal também é um tema muito presente nas obras de Tolkien, e em O Silmarillion isso fica bem mais evidente. Tantas guerras e desgraças que permeiam o livro é um reflexo dos anos em que o autor lutava na Primeira Guerra Mundial e escrevia os textos que comporiam o livro nos meios das trincheiras. É de se perdoar às vezes a confusão de ideias e nomes que são inseridos sem explicações no próprio texto, tendo que recorrer ao Glossário com constância. 

Enquanto lia, eu conseguia visualizar Tolkien escrevendo às pressas com um lápis velho e todo mordido, numa caderneta amarelada e suja todas aquelas narrativas que o deixavam acordado durante à noite. Era uma insônia muito melhor do que o barulho de tiros que zarpavam pelo ar e uma forma de escapar um pouco do aspecto terrível e desolador de onde estava. Enquanto haviam poucas esperanças no nosso mundo, a Terra Média após séculos de sofrimentos, consegue enfim um período de paz, mesmo que temporária, com a destruição das silmarils. 

Porém, a história não acabou, assim como a do nosso mundo também não e mais grandes feitos ainda precisam ser narrados. É uma pena que Tolkien não pode concluir muitos textos do Legendarium, como são chamados o plano mitológico da obra do autor. O legado que ele deixou aos seus leitores, no entanto, enche os corações de encantamento, e eu duvido uma saga de fantasia superar este feito. 

Ps: Futuramente, pretendo iniciar um diário de releitura de O Senhor dos Anéis lá no instagram do blog @blogmundosilencioso. ❤

Título: The Silmarillion
Autor: J. R. R. Tolkien
Editora: Martins Fontes
Ano de publicação: 1977
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