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Por que ler os Clássicos da Literatura mesmo?

by - quinta-feira, março 22, 2018


Como muitos que acompanham o blog, seja recentemente seja há mais tempo, devem ter percebido, sempre priorizo e priorizei os clássicos da literatura nas minhas leituras. Antigamente eu fazia isso por puro gosto, ou seja, era apenas os livros que eu mais gostava de ler por conter histórias que me prendiam e fascinavam e só. Não havia nenhum motivo a mais por trás disso. Contudo, observando a mim mesma e outros fatores, entendi que há um motivo muito maior em relação aos clássicos do que se imagina.

É fato que no Brasil a galera não gosta de ler porque foi iniciado na literatura pela escola com Machado de Assis logo de cara e na lata, sem nenhum trabalho imaginativo prévio nos anos anteriores, e sem nenhum acompanhamento correto com tais leituras. Quem já está no Ensino Médio ou já se formou (como é o meu o caso) passa e passou por esta experiência deveras desagradável de ter de ler livro x ou y por obrigação. 

Eu mesma que sempre adorei ler, precisei ler autores e obras de que não gostava e até hoje não gosto. No entanto fui uma exceção à regra por ter lido o próprio Machado e outros autores do currículo escolar com mais prazer. Sabemos, no entanto, que esse não é caso de 99,9% dos estudantes brasileiros, o que é muito, muito trágico.

Sim, é trágico. O problema é mais embaixo, mais profundo do que pura e simplesmente dizer que os estudantes não gostam de ler. Qual é o motivo por trás disso, oras? Não seria uma herança de gerações e mais gerações de brasileiros que além de serem mal alfabetizados, foram privados dos tesouros literários, seja na nossa própria língua e em língua estrangeira?

Como eu brinco às vezes, eu fui "bicho do mato" na escola. Ler Iracema ou sei lá, O Morro dos Ventos Uivantes naquela época e hoje não foram e não são sacrifícios árduos para mim, mesmo com a linguagem mais rica desses e de outros livros. Isso no entanto, essa facilidade veio da infância, de longos anos lendo aquilo que era próprio para a minha idade. Ou seja, fui iniciada bem cedo na literatura e quando cheguei na escola e dei de cara com Camilo Castelo Branco na minha mesa, não encarei a leitura com medo e com alguns preconceitos, como muitos leitores já crescedinhos hoje têm essa mania, até mesmo entre aqueles que possuem blogs e canais no Youtube.

Como o brasileiro perdeu o senso de proporções das coisas mais óbvias, temos que falar obviedades também, afirmando o que todo mundo sabe, mas não tem culhões em admitir ou porque quer pagar de bom moço, que existem livros de qualidade literária superior e livros de qualidade literária inferior. O que mede essa qualidade? Podemos citar o estilo de escrita, vocabulário, importância da obra para um período da história, e principalmente - este é crucial - como o autor encapsulou a realidade dos dramas humanos em sua obra. 

Aqui é que entramos nos clássicos. Estes livros não são chamados assim não porque é chique, mas (sendo óbvia de novo) pelo marco que tais obras deixaram na História. Que marco seria esse? Veja bem, seus autores eram escritores de primeiro ordem. Pois é, também existem escritores superiores e inferiores. Balzac não foi qualquer zé mané que publicou um rascunho na Amazon Publishing. Não, não, ele e assim como tantos outros que podemos citar ad infinitum aqui, que tomaram de assalto suas vidas, seus dramas reais e a linguagem para retratar aquilo que nós, coitados deste século, não somos capazes de dizer, porque perdemos esta capacidade. 

Tais obras não foram somente importante para a matéria de estudos literários, porém elas foram e são essenciais para se compreender a complexidade da vida humana, os conflitos internos e externos, as contradições, as experiências que jamais eu ou você teremos - ou não, vai que aparece um Mr. Darcy né? dentre outros.

Enfim. Os clássicos são a nossa tradição escrita que não podem e não devem ser ignorados porque eu tenho medo de ler, ou eu tenho preguiça ou não me interessa, ainda mais se você deseja ser um escritor um dia. Para um leitor, é também imperdoável, mas falo até com mais carinho e paciência com a criatura para tomar vergonha na cara. Mas para um escritor wannabe não. É inadmissível uma papagaiada dessas, exceção apenas para a ignorância de tal fato. 

A literatura contemporânea no geral (principalmente no Brasil e os importados traduzidos) está muito bagunçada e contaminada de cacoetes que não há como se corresponder diretamente com o que se vive como um drama, que mereça ser registrado para as próximas gerações. Está tudo um teatro mental que não sensibiliza ninguém, como se todo mundo estivesse numa matrix maluca sem conseguir sair dela, e tal literatura só alimenta a burrice. Claro, há exceções (graças a Deus) mas são vozes que gritam no deserto e não são os livros que vemos nas listas dos mais vendidos da Veja com frequência.

Lamento informar, mas estamos perdendo tempo precioso lendo porcarias que só vão prejudicar nossa imaginação e linguagem. Os clássicos funcionam como um remédio para a falta de senso de proporção das coisas, por exemplo, que sofremos tanto nessas terras, dentre outros males que achamos super normal. 

Além disso, os clássicos nos mostram que todo ser humano é difícil demais de entender suas ações, motivações, pensamentos e que somos muito contraditórios a vida inteira. Querendo ou não, achamos que as pessoas precisam ser assim e assado, num ideal maluco e inalcançável nesta vida, mas esquecemos por completo que nós mesmos não alcançamos este ideal e jogamos nos ombros alheios nossas misérias. Coisas e mais coisas que você não irá encontrar lendo apenas o que se produz hoje.

A literatura clássica te mostrará o quanto você como pessoa é inútil, instável, mau, egoísta, o quanto o mundo e as pessoas são injustas, cruéis e insensíveis, o quanto os fatos da realidade podem sair do controle num piscar de olhos e o quanto sua vida pode mudar do dia para noite. 

Ela também vai te mostrar o quanto os atos de bondade vem de lugares e pessoas inesperadas, o quanto o amor pode aparecer quando se menos espera, que às vezes você tem uma segunda chance para redimir o mal e que você pode sempre perdoar. Tudo isso, de graça, usando da linguagem adequada e fatos cravados no real. 

Todas as maledicências que você passar na sua vida serão menos terríveis quando você se lembrar do engano e do crime de Otelo, parando de choramingar que nem bebê e perceber que tem gente que sofre e sofreu muito mais do que você; que pessoas séculos antes tinham dilemas muito mais sérios e caóticos, do que você que tomou um pé na bunda ou porque seus pais não te entendem. Ou porque te xingaram no Twitter. Resumindo, os clássicos te farão gente, eles prepararão para o imprevisto e para essa montanha-russa chamada vida humana.

Usem sem moderação.


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