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Memórias Póstumas de Brás Cubas - Machado de Assis

by - quarta-feira, abril 18, 2018



Todo mundo tem traços de mediocridade.

É fato que há pessoas nessas terras tupiniquins (e em outras terras longínquas também) que são menos medíocres do que outras; aquelas pessoas que se destacam um pouquinho na multidão, mas que mesmo assim não são lá essas coisas, porque podem ser muito melhores.

A autobiografia de Brás Cubas assustadoramente pode ser a história de qualquer brasileiro médio dos últimos cem anos. Intercalei a leitura deste clássico maravilhoso do Machado junto com o romance Great Expectations de Dickens - também uma autobiografia que eu ainda não concluí - porém que serviu de um contraponto gritante entre os seus dois protagonistas.

Brás Cubas tinha uma alta posição social. Trabalhava na Câmara dos Deputados à época no Rio de Janeiro do século XIX e era uma dessas pessoas que tinha grande potencial de ser um letrado, um erudito, de deixar uma obra vasta, um legado de sua família para as próximas gerações. 

Contudo, Cubas sofre de um mal que é uma das piores coisas que podem acontecer com uma pessoa: a insinceridade consigo mesma. Se já é um terrível dano mentir para outras pessoas, a mentira para você mesmo pode destruir de qualquer aspecto de nobreza que você venha a desenvolver com o passar dos anos.

É interessante o contraponto com o personagem principal do Dickens do romance citado, o menino Pip, pois vindo de uma classe mais pobre e baixa da sociedade inglesa também do século XIX, o garoto tem um desejo de ser tornar um gentleman. Contudo, mesmo jovem e ainda um pouco analfabeto (até onde eu li atualmente) Pip tenta dizer a si mesmo o que lhe agrada e não agrada, o certo e o errado. Até tenta contar uma mentirinha para abafar um sentimento, mas no fim ele admite o que realmente pensou e sentiu, por mais que não consiga colocar em palavras exatas.

Brás Cubas além de ser mentiroso, definha moralmente a cada ano de sua vida - em especial quando se trata de Virgília, outra personagem medíocre como o protagonista. Sem mencionar que ainda se deixa influenciar pela filosofia maluca de Quincas Borba, o tal do Humanitismo, mistura maluca de filosofia hindu com Sartre e Nietzsche perdidos no meio desse bolo mofado. Seria quase uma "alegoria" da sociedade brasileira tal como ela é hoje. Eis aí porque joguei que o brasileiro comum não está muito longe do personagem machadiano, infelizmente. 

Machado em meio a tudo isso escreve com sátira em cada linha, com um humor sarcástico, seco, mas que arranca sorrisos de seus leitores. Não há melhor remédio do que rir de tudo isso, de toda a passagem enfadonha de Brás Cubas sobre a Terra. A falta de qualquer virtude ou ação nobre, e a mentira até o fim é o que faz com que a vida do personagem definha diante dos olhos do leitor. Se D. Plácida foi morta aos 19 anos, Brás Cubas foi morto aos 20.

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