Tecnologia do Blogger.

O Amor e Morte em Lira dos Vinte Anos de Álvares de Azevedo

by - quinta-feira, abril 05, 2018

Atena e as Musas - Hendrick van Balen the Elder (1573–1632)

Álvares de Azevedo foi uma figura poética interessante. Muito pouco se sabe sobre sua vida e morreu cedo demais para deixar muitos registros. Alguns dizem que ele foi um boêmio namorador e devasso, no entanto nos parcos fatos sobre sua biografia, ao que parece ele foi um homem mais recluso e com alguns problemas de saúde sérios.

Não é de se espantar ao ler Lira dos Vinte Anos que muitos possa imaginar que o poeta é igual ao eu lírico - apaixonado e namorador. Seria como se Álvares se inspirasse na figura de um poeta que foi quase seu contemporâneo, morrendo algumas décadas antes de Álvares nascer, que seria o inglês Lord Byron (1788-1824) autor do poema "Don Juan" que o próprio Álvares cita diversas vezes. Byron de fato foi um boêmio, cheio de polêmicas e segredos.


Teria o nosso poeta um desejo de ser um Lord Byron? Isso passou pela minha cabeça algumas vezes enquanto lia. Não acharia essa projeção de toda estranha, ao contrário, grandes poetas sempre conversam com outros grandes poetas.

O modo como a amada do eu lírico é descrita nos poemas é a marca registrada não somente das características da escola romântica, tanto de Azevedo quanto de Byron, mas também como estilo do próprio Álvares, onde se percebe que o amor é distante do nosso poeta, a ponto de fazê-lo sofrer. A amada é louvada, contudo raramente está próxima do eu lírico.

A morte fez parte da vida de Álvares, o que lhe causou uma impressão muito forte até o fim de sua vida, após o falecimento de dois amigos próximos. O contraste disso é evidente na segunda parte do livro (divido em três) onde os poemas são mais sombrios. O amor mata o eu lírico a ponto dele desprezar a própria vida e fazer troça da sua condição poeta.

O poeta é um nada, é um ser desprezado, jogado a sarjeta da amargura, motivo de riso para os passantes. Veio a minha cabeça outro poeta, este mais contemporâneo a nossa época, que seria o português Fernando Pessoa (1888-1935) que também descreve algo parecido no poema Autopsicografia. Álvares projeta um futuro triste para a figura do poeta, tal como Fernando.

No mais, é bom ter um excelente dicionário de língua portuguesa por perto para ler Lira dos Vinte Anos - recomendo o Priberam, um dicionário online que me salvou em outras ocasiões - porque o eu lírico explora as palavras para dar aquele ritmo musical para os poemas.

Essa musicalidade de rimas e sons é o que faz a coletânea de poemas de Álvares soar tão bem aos nossos ouvidos, mesmo para aqueles que torcem um pouco o nariz para ele. Não se espantem com o sentimentalismo e o drama a flor da pele dos poemas, pois é bem melhor do que o típico textão da nossa era.

Leia também

0 comentários

Olá. Lembre-se da cordialidade e do respeito. Qualquer comentário desrespeitoso para com a autora ou com terceiros será excluído.

Obrigada.