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Grandes Esperanças e a Maturidade

by - quinta-feira, agosto 16, 2018



Cuidado: Têm grandes spoilers do livro


Eu postei um mini resenha sobre esta obra maravilhosa no Instagram do blog (se você não segue, aproveite para seguir, pois estou sempre atualizando minhas leituras por lá). Mas como o espaço da rede social é limitado para textos mais longos, há um assunto abordado no livro que eu achei muito interessante: a maturidade.

Para quem não está familiarizado com a história, acompanhamos a jornada do órfão Philip Pirrip, ou apenas Pip para os mais íntimos, na Inglaterra do século XIX. Sem dinheiro e nenhuma fortuna, criado pela irmã mais velha e o cunhado, a vida de Pip vira de cabeça para baixo quando um misterioso benfeitor se dispõe a pagar os seus estudos em Londres, incluindo todas as suas despesas, enquanto ele não atinge a maioridade. Fascinado pela oferta tentadora, Pip aceita a proposta sem pensar no assunto. Alguns anos depois, em um belo e inesperado dia, Pip finalmente descobre a identidade do seu patrono, que não era ninguém menos do que o ex-condenado à morte Abel Magwitch, homem no qual Pip havia ajudado (sem querer) a fugir da prisão no começo do romance.

Pip tornou-se o típico jovem de boa fortuna da época de Dickens (e não muito diferente de alguns jovens de hoje): imaturo, gastava mais do que recebia, se importava demais com a opinião alheia e com amizades apenas por interesse e círculo social, exceto o melhor amigo, Herbert Pocket. Desenvolveu ainda um leve tom de arrogância para com aquelas pessoas humildes que o criou desde criança. 

Não é difícil de se imaginar que um jovem nessas condições dificilmente progrida como pessoa. É muito fácil encontrar alguns Pips perdidos por aí - mas talvez sem o bom coração do nosso protagonista - acreditando que o mundo lhe deve alguma coisa, e que com a cabeça tão grande que mal cabia no próprio corpo. Eu posso falar neste tom, até porque eu sou jovem e vivemos isso em algum momento. Quem nunca em algum momento da vida não foi como o Pip, hum? É até normal, eu diria, faz parte de um processo difícil e doloroso chamado crescer.

Pip teve um grande choque em toda a estrutura muito bem montada e planejada de sua vida quase perfeita, quando Abel se interpôs de novo no seu caminho. No romance, fica claro que ele sentiu-se humilhado por toda a sua vida estar nas mãos de tal homem, mesmo o dinheiro não sendo ilícito. Se Abel fosse descoberto após voltar a Inglaterra, seria condenado sem pestanejar. Esse choque de realidade no personagem foi a derradeira para que Pip passasse a refletir mais sobre seus ideais e atitudes para com os que estavam ao seu redor e o futuro.

Ele descobriu que nada vinha de graça e tão fácil assim. Aquele mundo fantasioso era capaz de ruir na batida de um martelo de um juíz em menos de cinco minutos - como Dickens narra a duração da maioria dos julgamentos na época - e Pip se viu em uma situação que ele jamais imaginou para si mesmo. Além de ser forçado a lidar com a descoberta, o rapaz precisou repensar toda a sua vida e o que estava fazendo com ela. Ironicamente, ele achou que já tinha toda a vida resolvida, que Miss Havisham tinha planos de dar a mão da filha adotiva, Estella, para Pip, que ele seria uma grande cavalheiro respeitado; a sua vida seria perfeita. 

Esse grande período de angústia de Pip serviu como um farol para ele cair em si e perceber o quão supérfluo era o caminho que estava trilhando até o momento. Pela primeira vez, pensou em como seria bom se tivesse a própria independência financeira, em como ele tinha o potencial de ajudar o cunhado que tanto gostava e respeitava e o fiel Herbert, que nunca o havia deixado na mão, mas que precisava de ajuda para poder se casar. Pip tinha um bom coração, só precisava apenas que fosse bem direcionado.

Os anos da juventude são feitos de altos e baixos. Não acredito que neste período exista uma "estabilidade" - não somente financeira, mas também emocional - porque é uma fase de mutação até a maturidade propriamente dita, que leva-se anos e muito esforço para se alcançar. Alguns conseguem mais cedo do que a maioria, outros mais tarde, alguns jamais. Serão eternamente instáveis, procurando agulha em palheiros sem rumo nenhum.

Pip encontrou o seu caminho um pouco mais cedo do que a maioria. Ele foi obrigado a crescer e colocar finalmente os pés no chão e dar a volta por cima com a própria vida. Aprendeu a pedir perdão e valorizar as pessoas que realmente importavam, até mesmo a ser grato com Abel, uma pessoa que não tinha o menor parentesco ou obrigação para com ele, mas que nunca deixou que lhe faltasse nada. 

Talvez nós leitores do século XXI nunca passaremos por uma situação atípica como de Pip, mas repensar como você está tocando a sua vida é sempre bom. Esse é um dos temas mais comuns nas obras de Dickes que eu já tive contato. Em algum momento os protagonistas sempre colocam a mão na consciência para se perguntarem: o que eu estou fazendo com a minha vida? Onde eu quero chegar? Quem eu desejo me tornar?

As respostas para estas perguntas são os nossos "great expectations". 


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